quinta-feira, janeiro 31, 2008

Comboio coronário

E todos os outros motores parados naquela hora.
Podiam ser os vossos corações à nora
se tivesse ainda velocidade
ou letra de música anunciando a minha prioridade.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

responsabilidades

completamente de acordo com Eduardo Pitta: antes da responsabilidade política, que podemos exigir a ministros e suas comanditas, está a responsabilidade profissional, que começa em nós, passa pelos nossos directores de serviço e acaba outra vez em nós. estou a falar de médicos mas podia estar a falar de professores, ou de qualquer outra área onde as culpas costumem ser chutadas para canto. estou a falar de profissionais diferenciados que vivem em democracia e que deveriam sentir-se em absoluta responsabilidade, não só pelos actos, mas também pelas suas omissões.

se um doente cai de uma maca, a responsabilidade também é minha. se um aluno passa sem saber o indispensável, a responsabilidade também é de quem o passa. podemos ser pressionados, podemos ser mal amados, podemos até ser perseguidos. mas temos um trabalho a fazer, uma atenção a centrar: no paciente, no aluno. começar no nosso consultório, na nossa sala, no nosso pequeno mundo. não fazer do nosso umbigo o nosso norte. mas depois ir mais longe. e fazer escolhas: pôr num dos pratos da balança o nosso conforto, a nossa inércia e conformismo. saber dizer não: assim não faço, assim não brinco. ter a coragem de falar, de ouvir, de exigir.

a vida é difícil (não vem pronta a ser vivida). e complexa (às vezes a melhor maneira não é evidente). se não somos parte da solução, somos parte do problema.

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Momento

A esta hora, depois de três de incontornável trabalho para o amanhã de serviço, quase se me perdeu o espanto. Caí do diário do Guernica. Rabisquei uma nova empresa. Dela não serei soldado para canhão nem general no cá atrás da linha das sortes. Serei o homem esforçado que apoiará a bala do canhão. Sem horário rigoroso, ganho assim mais duas horas de cama, verei a manhã já alta como os padeiros, tão alta como a altitude do sono que já me cerra os olhos, ou a outra, resto de espanto, para onde cresceram os pães com o fermento e voaram os teus olhos no teu tempo.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Guernica

Lendo diários, posicionando datas:

«Madrid, 29 de Janeiro de 1984 – Guernica. Até que enfim dou aos olhos a alegria que há muito sonhavam: ver ao natural a imagem emblemática da violência do nosso tempo. E vê-la, também, entronizada no seu lídimo altar sem tempo. A Espanha é a pátria eterna dos excessos, na arte e no resto.»

Torga, Miguel, Diário, Vols. IX a XVI

segunda-feira, janeiro 28, 2008

em pecado...



Paulo Nozolino

Linha do Tua

A tua linha do Tua. O revisor disse ao Armindo Augusto, passageiro regular, que hoje a viagem era de graça. «Eu, medo?», porque sobre isso questionado disse e sorriu. Reabriu o sonho e o último caminho-de-ferro do nosso património. É uma linha que tem o seu vagar. Passeia os passageiros que vivem devagar. Ali vive-se o tempo do relógio das estações, que são tantas vezes os rebentos de Maio e a cesta cheia da vindima de Setembro. Querem dela fazer uma barragem, linhas de aço por betão de água controlada. Encher-se-á na conivência dos padres da água benta, os restos do gelo do wiskey autárquico e, estou certo, das lágrimas de saudade que irrompem nos olhos dos que da linha fizeram o seu mundo. Estamos a criar o novo submarino que falta à nossa armada. Um país que afunda o património é doentio tecnocrata. Querem comemoração? Ao nosso não! À Tua!

domingo, janeiro 27, 2008

sociologia instantânea II

os colegas da primária do meu pai, nos arredores do Porto, anos quarenta. 60 e tal rapazes (distingo também 2 raparigas), a um passo de se tornarem homens: calculo que, tal como aconteceu com o meu pai, muitos começariam a trabalhar pouco depois, com apenas 10, 11 anos. alguns calçam socas. o meu pai, em cujo olhar vejo, assombrada, o meu próprio filho, usa uma corda à laia de cinto.

comove-me este rapazinho que foi o meu pai. comove-me saber que, partindo deste quase nada, ele tenha conseguido, três décadas depois, que na minha fotografia, eu aparecesse no outro lado do destino.


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Tempo perfeito

Que tempo fizeste hoje?
Eu andei a fazer sol toda a manhã à beira-mar.
Deixei-o a quem precisa!
(dizendo que mo devolvia)
Quando o meu coração o procurar.

sábado, janeiro 26, 2008

sociologia instantânea


a minha turma da 4ª classe na escola primária de Francelos, em 75. 29 raparigas dos 8 aos 13 ou 14 anos. destas, conto 9 que continuaram para o 5º ano (então 1º ano do ciclo). apesar de ter continuado a morar em Francelos ainda por muito tempo, nunca mais vi a maioria das restantes. quem serão hoje, com a 4ª classe? que vida terão tido?

vejo as perninhas, claramente subnutridas da IR, que no quadro patinava sempre nas contas enquanto, perante toda a turma, a professora lhe gritava "cábula". e a bata sem botões da IS, que tinha piolhos residentes no seu estranho cabelo. as boas alunas todas juntas, à direita, mais perto da professora (que será dela também?).

"sociologia instantânea" (como JPP nos mostrou que Susan Sontag escreveu em "On Phtography").

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quarta-feira, janeiro 23, 2008

As bolsas e as balsas

Penso que já foi um simples jogo, «a bolsa ou a vida». Os apostadores sulcam ordens de mandador, compram e vendem papel com o colapso das bolsas. Os magrebinos que deportamos, sulcaram água com as balsas à procura de dinheiro. Tenho em memória o gráfico da bolsa no écran, a sensibilidade do cobre e do papel de que são feitas moedas e notas pequenas. Tenho em memória as areias de Erfoud e a sensibilidade dos grãos de areia que dão corpo ao Atlas marroquino. O gráfico e o relógio do tempo. Ninguém é dele dono e senhor para poder perder. A velha regra ainda existe e não mente:
- os ricos exportam capitais.
- os pobres exportam gente.

terça-feira, janeiro 22, 2008

2 anos

acabo de descobrir que fazemos por estes dias 2 anos de blog. a linha do norte começou a ser sonhada no Verão de 2005 e, depois de várias tentativas de nos sentarmos os 3 a beber um copo sobre o assunto, a 19 de Janeiro de 2006, exasperados e sem que nos conseguíssemos encontrar, o David punha o primeiro post (como só a 23 arranjámos um sitemeter é por essa data que nos costumam felicitar). desde esse dia, já distribuímos mais de 23000 bilhetes, um número virtual de passageiros que dá peso às nossas composições. e calor. e velocidade.

acho que esta é uma data para comemorar.

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segunda-feira, janeiro 21, 2008

Comboio Hotel

Nas carruagens é tudo mercadorias, entre o fumo, despojos que ficaram da discussão imprevista. As suas linhas paralelas numa curva para nenhures. No hotel, recado dado na portaria, passaram o resto do fim-de-semana em quartos separados. Coisas da vida, adorada-flor-sempre-surpreendente-e-agarrada-aos-velhos-vícios-como-ífens-doentios.

teresa, 8


domingo, janeiro 20, 2008

Gadgets de sedução

O mais longe era chegar pelas costas, tapar-lhe os olhos e esperar que adivinhasse o seu nome. O mais próximo era mandar uma Polaroid do seu umbigo com convite para jantar. Hoje chega pelas costas como antes. Enfia-lhe nos ouvidos os auriculares do seu Apple iPod Classic e espera que ela adivinhe a música que os seduz.


Comecei a apreender a dançar sevilhanas. Ainda na 1ª copola e ainda só os passos dos pés, que as mãos, o porte e a alma só muito depois. Foi o gozo que encontrei para fazer exercício com prazer (avessa a esforços!) e fugir do mundo uma hora, espantando a realidade no bater do tacão. Olé!

Mané Garrincha 25

No «Público» de hoje. Não o vi jogar. Dizem-me que foi o melhor. Dizem-me de cá e do lado de lá do Atlântico. Dele disseram:

«Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos nos estádios.»
Carlos Drummond de Andrade

«Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio.»
Armando Nogueira

«Um Garrincha transcende todos os padrões de julgamento. Estou certo de que o próprio Juízo Final há-de sentir-se incompetente para opinar sobre Mané.»
Nelson Rodrigues

sábado, janeiro 19, 2008

focagem

Sento-me na varanda. Sento-me porque voltou o tempo. Sento-me no inverno. A cadeira range a humidade das chuvas. Desapreendi a profundidade. Mas o olhar chega fácilmente ao mar e a mão ao cigarro. Não há comoção mas as marés mudam.

A paisagem olha-me. Sentada na cadeira de lona, com a janela pelas costas. Os livros nas estantes do fundo da casa que me tem. A paisagem olha-me e não se comove.

Tentamos a focagem muda. A paisagem ajusta a nitidez e enquadra-me. Acendo o cigarro e olho o tempo de ausência. O inverno é triste.

Foi o livro de poesia que me apeteceu ontem, a antever o regresso do vagar. Procurei-o. Não estava lá nas prateleiras da livraria. Nenhum livro me espera porque as palavras secaram como as folhas. Não disse que vinha...e chegar começa por sentir o peso de todas as desaprendizagens.

Está uma luz a fingir porque é inverno. É a hora da morte. Morro sempre no inverno. Morro sempre a morte do anterior inverno.

Bastar-me-á sentar mais vezes, fazer a usura do vagar e das neblinas,cruzar as pernas, ouvir as sirenes dos barcos e saberei sentir para além da varanda.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

inveja pura

"A Inocência e o Pecado" (Brighton Rock no original) é um dos livros da minha vida. magistral como só Graham Greene sabe ser, conta uma história aterradora que, ao contrário de milhares de outras histórias que li, me ficou para sempre gravada na memória (na memória do horror emocional). também já vi o filme (belíssimo), mas não consegue incomodar nem metade do que faz a escrita de Greene.

acabo de saber que Pedro Mexia tem um exemplar deste livro autografado pelo autor, Graham Greene, o próprio (um dos meus 3 ou 4 autores favoritos). não sei se vou conseguir dormir de tão roída que estou.

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planeta tangerina


ainda quase ninguém sabia, mas já está na bloga o planeta mais bonito desde que lemos o Principezinho. lá moram os ET Isabel, Madalena, Bernardo e Yara, obreiros de coisas lindas como essa agenda aí em cima (e como esta e como esta) e que também nos vão levando pela mão a outros lugares de beleza.

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Receita

Trabalho a língua no que me resta dos dentes. Uma cigarrilha, na ponta da boca, queima enrolado tabaco onde se encontram prensadas as palavras, as incisivas, que me dizem serem quase todas destinadas para as mulheres da minha vida. Prevaricam amigos que nada sabem dos prazeres que crescem no segredo das sombras que já fizemos. Brincam mulheres que não têm espaço nos seus dedos para os meus anéis, dizendo que apenas escrevo entre o meu amor por elas, o resto lodo, o resto do resto, carvão do pulmão. Deixou-lhes bilhetes a dizer que são receitas. Poucas sabem que fui coleccionando palavras por isso. Nós de marinheiro. Folhas para tisanas. Uma «galette des rois» cujos brindes são todos os itinerários do nosso desejo, curvas da estrada que fazemos com um risco cardíaco à volta dos nossos corações, festejos quando são correspondidas. Amor meloso. Junta-lhe um copo. Acende o fogo que nasce em quatro mãos que se entendem. Não são vidas «blue screen»! Todos existimos nos juízos que fazemos. Que outro jogo conheces para esta idade mais agradável que este:
- escolher da caixa da rifa da vida o «carimbado» rebuçado da sedução!


quarta-feira, janeiro 16, 2008

a nova Leitura

fui lá num dos primeiros dias e se calhar fui injusta: exasperei-me com a chuva que caía lá dentro, com a atrapalhação do empregado na busca pelo livro que pedi, com o não encontrar nenhum dos 2 livros de que precisava. mas hoje voltei, porque não há volta a dar, está aqui mesmo à mão e precisava de um bom dicionário. e o impacto foi outro: os livros já tomaram conta do espaço que se sente agora habitado. reina um quase silêncio - essencial -, apesar da razoável quantidade de pessoas que lêem nas poltronas e sofás espalhados pelas várias salas e das que lancham num barzito à entrada. um espaço aberto e claro. mas não grande demais, nem cheio demais. a parecer-se mais com uma livraria do que com um hipermercado. vou. sim, vou voltar.

ah, e tem uma espécie de comunidade de leitores. há-de haver mais histórias da nova Leitura*.

* a Leitura era uma livraria no centro do Porto minúscula, imprópria para quem sofresse da coluna, mas onde se encontravam, não só os livros que se procuravam, como os livros que nos procuravam a nós (isso é a serependidade, e acontece muito em sítios como a Leitura era) e, ainda, pessoas que sabiam de livros e nos orientavam nessa procura. era ainda conhecida pela secção de arte. fechou em Agosto e reabriu em Novembro, num grande espaço de um pequeno centro comercial do centro da cidade.

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a minha palavra favorita?

hoje resisti a comprar um livro (pensando de mim para mim "sua consumista, vinhas só comprar um dicionário e já andas à cata de alguma coisinha para ti, tem tento, com tantos livros ainda à espera de vez na mesinha de cabeceira!"). mas, de castigo, fiquei com o título na cabeça: A minha palavra favorita. era uma compilação que Jorge Reis-Sá organizou com textos de variadíssimos portugueses (ditos figuras de relevo), à volta da palavra favorita de cada um.

duas pessoas escolheram uma palavra horrível, mas que designa algo maravilhoso: serependidade (vão ver, vão ver). FJV escolheu, já se sabia, poeira. estavam lá todas as palavras que não podiam faltar: amor, poesia e palavra. não pude deixar de ficar a pensar qual seria a minha.

podia ser norte. podia ser luz, ou calor. podia ser homem, podia ser noite, podia ser escrever. ou tempo, eternidade, música, teia, laço, abraço, mundo. é difícil separar as palavras das ideias (e por isso entre as preferidas aparecem palavras tão feias). mas é, sobretudo, difícil separar as palavras umas das outras e, nessa misturada, quase impossível encontrar a nossa.


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terça-feira, janeiro 15, 2008

corda na garganta

(Julião Sarmento)

Ás vezes respiro, outras sinto apenas a corda a apertar. Ás vezes chove e a corda range húmida contra a pele. Ás vezes...de corda na garganta.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

1º de Março

Está acertada a data, dia de S. Rosendo, altura em que a Mónica, estou certo, terá o seu correio regular. Andaremos em quarto minguante. Temos de aproveitar o dia para nos vermos. Confirmem. O convite fica aqui renovado na linha com esta nova data.




domingo, janeiro 13, 2008

persistência


já aqui o confessei: tenho este handicap mas gosto da mulher Agustina. e por isso insisti num livro dela. uma espécie de biografia. e gostei do muito que soube a pouco (lido num instante uma noite antes de adormecer). será que uma biografia não é bem um livro? será que a realidade é uma tentiva falhada de imitar a ficção?


a Helena explicou há tempos o fascínio da biografia: "Não sei precisar o que me atrai na leitura de uma biografia. Se a percepção da pequenez na grandeza o que permite num instante, da nossa pequenez, fazer grandeza ... se a confirmada constatação que qualquer história de vida é por si mesmo bonita, sobretudo quando descontextualizada da própria vida... se, se... não sei. Para além da curiosidade pura e, neste caso particular, da inveja de tanta tertúlia, de tanto excesso, de tanto prazer."

a palavra fascínio nunca se gastará com a Agustina mulher, personagem e escritora.

"Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas. Há pouca gente que perceba que escrever é uma danação em que às vezes se têm encontros com Deus. Eu perguntava: lutar com o Anjo, o que significa Jacob lutou com o Anjo e ficou aleijado para sempre. Esse aleijão é a pessoa que tem uma ideia sobre a sua existência na terra e lhe dá forma pelas palavras, rios de palavras, rios de incertezas profundas."

Agustina Bessa-Luís, O Livro de Agustina (Guerra & Paz 2007)


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quinta-feira, janeiro 10, 2008

+ 44

Assim na minha vida os números ganham razão. O que me calhou este ano pelos anos é o «ráqui-ráqui», capicua, nome atribuído na cantilena do jogo do loto na Gândara. Diz uma lenda que mesmo agorinha inventei, que a cada ano se deve somar uma mulher e que as que vão ficando nos deixam pelo menos uma breve história para contar. Às que vão ficando, segundo a lenda, deve-se deixar música...

V. Valse des fleurs

Devolvo-te uma, ao acaso, das da valsa das flores que enviaste. Assim, repetindo, habituar-se-á ao caminho, que será sempre semente de outras valsas, libertando cheirinho bom, sabes, daqueles do champô que duram a primeira hora da manhã, tão volátil e tão fresco como as nossas cumplicidades. Apontei o Tchaikovski. E devolvo para o caminho outras folhas de flores. De uma delas faremos um chá para outras conversas sempre que das palavras nos necessitarmos. Parabéns!

terça-feira, janeiro 08, 2008

para o meu amigo


eu gostava de saber escrever para o meu amigo David (que hoje faz anos em capicua) um post tirado da cartola: palavras como fitas coloridas jorrando-me das mangas, lenços de seda esvoaçando, fotografias disparando como pombas brancas, ideias irrequietas como coelhos. se eu soubesse, escrevia-lhe esse post e grãos de areia do deserto viriam sob os seus pés, sobre a sua cabeça todas as constelações do hemisfério sul. eu queria escrever mas só me ocorrem truques de magia: ele trazido um dia pela mão de um mestre com olhos azuis de anjo travesso (eu por amizades abençoadas e insuspeitas e milagreiras). um nada esse primeiro truque que nos juntou, comparado com os passes seguintes que não nos deixaram perder (canções, caminhadas, copos, poemas. e cartas, muitas cartas. para cá e para lá, indo e vindo, como nós, pelo comboio da linha do norte). eu gostava de escrever, mas só me sai o que já está escrito na tinta secreta e sempre letal com que se escrevem a memória, o tempo e o futuro: a nossa improvável, etérea e infinita história.


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domingo, janeiro 06, 2008

Para vocês que cá ficam... ( Luiz Pacheco)


a dormir a escrita, e a vida...

daniel blaufuks

sábado, janeiro 05, 2008

antigamente






antigamente não havia televisão em todas as casas. na minha entrou um dia (calculo que em 1970) um aparelho emprestado: era da empresa sueca onde o meu pai trabalhava. dizia-se lá em casa que a televisão era dos patrões do pai e eu, muito miúda, achando que patrões seriam indivíduos aparentados com os ladrões, vivia perturbada a colaboração da família naquela operação ilícita.

depois não percebia porquê tanto alarde à volta de um caixote onde apenas passavam imagens fracas e descoloridas de homens imensamente aborrecidos. lembro-me de estar com os meus irmãos em frente ao "Se bem me lembro" do Vitorino Nemésio: tirávamos o som e ficávamos a gozar com ele por gesticular muito e pelos seus óculos de fundo de garrafa.

depois, aos poucos, foram aparecendo os desenhos animados. nada que se assemelhe à programação infantil dos anos mais recentes. não. os desenhos animados eram acontecimentos que ocorriam sem aviso prévio, sem hora nem dia fixo, por períodos de tempos que me pareciam sempre meteóricos, por vezes apenas com a duração suficiente a cobrir o atraso de qualquer outro programa. invariavelmente apanhávamos as histórias a meio e queríamos sempre só mais uma que nunca vinha. do Speedy Gonzalez, do Calimero, dos Barbapapa e do Chapi Chapo guardo uma memória equivalente à das paixões platónicas nunca correspondidas.

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nostalgia pura


via Rui, no Banana Killers & Co., o mais nostálgico regresso à minha infância. Chapi Chapo, o cinema de animação que nos anos 70 fazia as delícias de muitas crianças, agora no You Tube. além do genérico, 2 episódios inteirinhos que revi quase em transe, perante os olhares incrédulos da restante família a quem tentei - acho que em vão - explicar a razão do meu deslumbramento.

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19 - Aviso é preciso!

Para a Cristina Gomes da Silva e para o Paulo Buchinho as primeiras palavras, porque já inscritos. Não vai dar o encontro de 19 em Coimbra. Compromissos que chegam, profissionais e particulares com que não contas, retiraram-nos essa disponibilidade de estarmos todos juntos. A Helena concorda com início de Março, mesmo não sabendo porquê! A Mónica vai enviar e-mail a todos os desejados, espero que apontando Março como uma meta a confirmar. Estas palavras são para que organizem as vossas vidas. Ficam as desculpas. Breve, breve, estaremos juntos. A Linha avisará a nova coordenada. Entretanto, digam de Março as vossas disponibilidades.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Apetece

Sabias que todas as minhas economias estão a ser poupadas para o teu enxoval de alegrias? Dentro de uma caixa de música, feita de cedro, guardo o tempo da espera, o verde da água de não nos vermos, o búzio onde se ouve o mar onde nos conhecemos, a pulseira de contas com todos os contos da feira de S. Mateus, o anel que te sairá como brinde no bolo-rei do próximo Domingo de Reis, partida do mapa cifrado (se comeres a minha fatia!) com o caminho tintim por tintim iluminado por um candeeiro de rua para nos termos.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O legislador

O legislador virá um dia e dirá que é proibido fazer amor com a barba por fazer. E dirá que o vinho legal será todo de syrah. E que todas as meninas se chamarão Eva e todos os meninos Adão. E que todos os peixes, o pão e todas as carnes serão confeccionados em pias baptismais. E que todos os cinzeiros passarão a peças de ourivesaria. E que as abelhas guardarão o mel em preservativos. E que todas as notas do banco serão impressas em toalhinhas “RENOVA”. E que todos os teus beijos serão escrutinados primeira e assepticamente nos lábios de um anjo pardo enviado por Deus Vosso Senhor. Até um dia a coisa mudar, até ao dia em que os boletins de voto forem impressos em rolos de papel higiénico.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

BCP

Um tal de Jardim Gonçalves escreveu-me hoje. Sim, sou um reles accionista do banco das vigarices. A desejar bom ano? Não! A dizer que cessa funções e que não poderia deixar de dar uma palavra pessoal aos Senhores Accionistas. Palavra pessoal, repito. Tratando-me por Exmo(a) Senhor(a), questionando o meu sexo, está tudo dito. Nem sei se estou ainda no grupo dos accionistas ou já nos “stakeholders”, tal é a confusão da casa e mal percebo o dialecto assumido do banco, num madeirense malandro à Berardo, voz de outro Jardim.
Aqui me fico. Darei ordem de venda assim que der em resultado líquido para uma caixa de cigarrilhas, que irei fumar à socapa, agora que os fumos estão proibidos mesmo nos espaços como este já perdidos.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Ano que chega

© Paulo Lopes

2008
O ano começa como uma agenda que se abre. Solidificação. Roupa que nos emagrece. Unha pintada. Herança antes de herdada. Todas as histórias de um marinheiro que sobreviveu. Sementes para sementeiras. Cheiros de noz e de nós. O brinquedo do miúdo na manhã do Natal. O gelado fresco antes do pau, a maçã vermelha, o fio de água que brota da fonte e todas estas palavras que amanhã receberás no correio como um guia sumário de um país onde iremos viajar. A palavra certa. A linha do Norte. O golo do Cristiano Ronaldo. O próximo Manoel de Oliveira. A iniciação dos noviços. É carta, foto, música, livro, vinho, ágil futuro, aquilo que quero ainda fazer já ali, o teu sorriso, porque neste ano que começa viveremos juntos uma vez ainda.

a transitar

cada vez mais os desejos para o ano novo são que transitem do ano velho os tesouros acumulados: saúde, paz, amor, pão, trabalho. para os nossos primeiro, para o mundo logo a seguir. desejos mínimos. desejos que não se poderão cumprir para sempre mas que no minuto zero do ano suplicamos persistam ainda por este tempo novo que se nos abre pela frente.



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