declaração de voto
subscrevo, linha por linha, o artigo de José Miguel Júdice no Público de ontem. (para quem não tem o jornal, clicando sobre o texto dá para ler em tamanho real)


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a tragédia dos partidos
que uma mulher, sóbria e recta como Manuela Ferreira Leite pretende ser (como eu acreditava que fosse, embora não lhe reconhecesse capacidade para liderar um governo), tenha de fazer de conta que:
o jornalismo sensacionalista e de enxovalho de Manuela Moura Guedes tenha um valor tal que o seu afastamento só se possa explicar por asfixia democrática;
o mundo de Alberto João Jardim seja normal e isento dos métodos de que ela acusa Sócrates;
é para mim do mais trágico que a política partidária ainda me poderia trazer.
(declaração de interesses: nunca tive qualquer filiação partidária mas, nascida numa casa social-democrata, em 25 anos de eleições terei votado PSD mais de 90% das vezes - apenas votei 2 vezes no socialista Fernando Gomes nos seus primeiros mandatos de Porto, com a Manuela Melo, uma vez no PSR, muito, muito no seu princípio e uma vez no Sócrates, a qual penso repetir) Etiquetas: actual, política
os barrigas cheias de teconologia
estou com
Eduardo Pitta: não há paciência para todo este burburinho anti-Magalhães, vindo de quem tem a barriga cheia de tecnologia.
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isto é, mais ou menos, o que penso, cansada, sobre a discussão política que vou ouvindo.
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o meu 25 de Abril
eu tinha 7 anos em 74. andava na 2ª classe e só tinha aulas à tarde. o meu pai tinha ido trabalhar e para mim, os meus irmãos e a minha mãe, era uma manhã igual às outras. lembro-me de estar na cozinha e de ouvir lá fora a voz de um vizinho amigo dos meus irmãos que chegava e se surpreendia: "Então vocês ainda não sabem? Houve um golpe de estado!" - palavras que nunca tinha ouvido antes mas que se preparavam para mudar, para sempre, o clima lá de casa.
a sensação que mais forte me ficou foi a de, nos dias seguintes, à mesa, o assunto ser sempre o mesmo. era uma conversa absolutamente nova entre os meus pais e da qual nós os 3 ficávamos de fora. eu esperava, confiante, que aquilo passasse porque já tinha acontecido outras vezes, surgirem umas conversas assim impenetráveis dominando durante uns tempos as refeições, mas que acabavam sempre por se desvanecer. mas isso nunca aconteceu. aquilo nunca mais acabou.
os meus pais aderiram, desde a primeira hora, ao PPD, galvanizados pela personalidade de Sá Carneiro, esse extraordinário homem do norte que assim tiveram o privilégio de conhecer. lembro-me de no dia das primeiras eleições, ouvir a voz da minha mãe na rádio, para onde telefonou assustada pela fraca afluência à sua mesa de voto, apelando para que as pessoas fossem votar.
lembro depois os dias quentes de 75 e o medo que o meu pai tinha dos comunistas (que o faziam desdenhar da generalidade da iconografia da revolução). o meu pai tinha um pequeno terreno em Águas Santas (onde nasceu) que nessa época se apressou a vender: "antes que venham aí os comunas e fiquem com tudo". isto era assunto de conversa meu com as crianças da vizinhança que às vezes se riam e eu não compreendia completamente porquê.
foi isto o meu 25 de Abril, o meu golpe de estado, uma coisa que só começou a acontecer nesse dia e que não trouxe logo consigo o conhecimento e a compreensão de tudo o que estava em jogo. tive que aprender o que me faltava da revolução mais tarde, à minha conta. e é por isso que é fascinante revivê-la pelos meus filhos, aprendendo todos os anos mais alguma coisa, com eles e para eles. ainda hoje passamos o feriado quente por casa com eles a passarem repetidamente o Grândola Vila Morena e o E depois do Adeus (de que ontem, pelos vistos, falaram muito na escola) e eu a comprar no iTunes umas músicas de Fausto e de Sérgio Godinho (autores que muito cantei à roda de fogueiras em campos de férias mas que nunca fiz representar decentemente no meu espólio musical). com mais alguns temas da colecção dos 50 anos de música do Público, fizemos a festa cá em casa. só faltaram os cravos.
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de cavalo para burro e de burro para mastodonte
depois de Santana, e mais ainda depois de Menezes, quando pensávamos que pior era impossível, eis senão quando se aventa a hipótese de Alberto João entrar na corrida para líder do PSD, "para fazer no país aquilo que fez na Madeira" (clamava ontem na rádio, não um ilhéu qualquer, mas o presidente da distrital social-democrata de Lisboa). posto isto, o assunto passa da temática político-partidária para a da sociologia, ou da etnografia, senão mesmo da zoologia.
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vasculhar passados I
a propósito de mais uma trapalhada no passado do 1º ministro, lá me arrepio eu com a perspectiva de um dia me vasculharem o passado.
é que, muito antes de me licenciar - o que,
já confessei, incluíu várias e acidentais irregularidades - comecei por ser aluna clandestina da 1ª classe. como nesse ano havia excesso de contingente, eu, fazendo 6 anos em meados de Outubro, não podia matricular-me. como também já
aqui contei, andando eu na escola desde os 2 meses de vida, já lia e escrevia e portanto a minha mãe entendeu que não podia esperar mais tempo. arranjou-me então uma professora que aceitou manter-me clandestina na sua sala durante 1 ano (no fim do qual fiz o chamado exame de transição que me permitiu ingressar oficial e directamente na 2ª classe).
não se julgue que esta trapaça foi levada a cabo de ânimo leve. não: esclarecida sobre a ilegalidade da minha situação fui instruída para não me alargar em informações sobre a mesma. na sala, o meu lugar era bem ao fundo, para passar despercebida em caso de visita surpresa dos inspectores. cheguei mesmo a ser recambiada para casa 2 ou 3 vezes, de emergência, perante a ameaça de visita dos mesmos.
só me aliviava a consciência - e a culpa - o facto de haver outra menina na sala em situação ainda mais irregular que a minha (só fazia 6 anos em Janeiro!). aliás, sossegava-me bastante o facto da sua família ter um ar absolutamente normal (quando eu começava a duvidar da respeitabilidade da minha). o sossego definitivo chegou quando no tal exame de transição me vi entre várias dezenas de crianças exactamente na minha situação.
como é que depois desta espécie de começo de vida se cresce em responsabilidade, respeitando a verdade e a lei? não sei, só sei que é possível, mas não é assim de repente.
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responsabilidades
completamente
de acordo com Eduardo Pitta: antes da responsabilidade política, que podemos exigir a ministros e suas comanditas, está a responsabilidade profissional, que começa em nós, passa pelos nossos directores de serviço e acaba outra vez em nós. estou a falar de médicos mas podia estar a falar de professores, ou de qualquer outra área onde as culpas costumem ser chutadas para canto. estou a falar de profissionais diferenciados que vivem em democracia e que deveriam sentir-se em absoluta responsabilidade, não só pelos actos, mas também pelas suas omissões.
se um doente cai de uma maca, a responsabilidade também é minha. se um aluno passa sem saber o indispensável, a responsabilidade também é de quem o passa. podemos ser pressionados, podemos ser mal amados, podemos até ser perseguidos. mas temos um trabalho a fazer, uma atenção a centrar: no paciente, no aluno. começar no nosso consultório, na nossa sala, no nosso pequeno mundo.
não fazer do nosso umbigo o nosso norte. mas depois ir mais longe. e fazer escolhas: pôr num dos pratos da balança o nosso conforto, a nossa inércia e conformismo. saber dizer não: assim não faço, assim não brinco. ter a coragem de falar, de ouvir, de exigir.
a vida é difícil (não vem pronta a ser vivida). e complexa (às vezes a melhor maneira não é evidente). se não somos parte da solução, somos parte do problema.
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o complex do simplex
fui hoje forma(ta)da para aquela que, pelos vistos, é considerada "
uma das medidas mais emblemáticas" do programa Simplex: a marcação (a partir do Centro de Saúde) de 1ªs consultas hospitalares por via electrónica. saudando, evidentemente, o princípio da ideia (informatizar, informatizar, informatizar), que permitirá curar muitas maleitas de que padece o actual sistema (de cartinhas para cá e para lá), além de permitir, por exemplo, que um dia se possa saber,
afinal, quantos pacientes esperam há quanto tempo por cada consulta hospitalar,
saudando, evidentemente, a ideia, fico abismada e incrédula
(e a bradar aos céus)
por, para a referida marcação electrónica, o Ministério da Saúde ter adquirido uma aplicação informática nova, diferente da usada no meu dia-a-dia para todas as restantes tarefas da consulta (e que até já continha parte das tarefas agora propostas).
assim: quando esta "emblemática" medida de simplificação entrar em vigor eu vou trabalhar com 2 aplicações em simultâneo. numa tenho uma agenda, faço registos clínicos, arquivo o historial dos pacientes, emito receitas e credenciais várias e uso um sem fim de instrumentos úteis à consulta. noutra, peço consultas hospitalares: abro uma nova e sofisticada aplicação onde os necessários dados clínicos do paciente terão de ser inseridos de novo (digitando-os ou fazendo todos os copy-paste necessários). simplicíssimo, não? (é que deve ser mesmo muito difícil introduzir mais essa função na aplicação anterior)
não, ainda não me acredito. e não, não é asneira própria deste ou daquele governo. isto só pode estar inscrito (em papel azul e devidamente carimbado) no DNA lusitano.
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a pólvora
olha, descobriram agora o faz-de-conta que é a existência de listas de espera infinitas para algumas especialidades. escandalizam-se com 90000 à espera de uma consulta de Oftalmologia e esquecem-se de dizer que a esses 90000 havia que somar todos aqueles que todos os dias os médicos de família não enviam à consulta hospitalar por saberem que simplesmente não há resposta.
Oftalmologia, como a Estomatologia, é um cancro nacional. depois há tumores mais ou menos localizados: Dermatologia, por exemplo, no concelho em que trabalho simplesmente não há (mais uns quantos que todos os dias não vão engrossar o amazonas que é também esta lista de espera). outras especialidades fingem que existem, mas depois levam mais de um ano a marcar uma consulta: Cardiologia, Imunoalergologia, etc.
depois dizem que em Reumatologia a espera é mínima: falta dizer que como só há consultas desta especialidade em 3 ou 4 hospitais do país, a maioria dos doentes deste foro nunca é encaminhada.
mas não há razões para alarme. segundo a Dra. Carmo Pignatelli (notícias de hoje na TV), os números não são exactos: alguns hospitais nem sequer responderam (presumimos que aqueles com diminutas listas...); alguns doentes já terão tratado da saúde na medicina privada; outros ainda, até já morreram, enquanto esperavam. não há quaisquer razões para alarme, portanto.
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incentivos à natalidade
uma mulher de 40 e tal anos que em tempos fez laqueação de trompas pergunta como pode fazer para engravidar outra vez. está a trabalhar há uns meses e queixa-se de andar muito "
cansada e stressada" porque é a primeira vez na vida que está a trabalhar fora de casa (digamos que trabalhar
também lhe mete muita impressão). nos últimos anos e até começar a trabalhar vivia do rendimento mínimo. está separada do pai dos seus filhos (que, afirma, nunca foi homem para ela pois não gostava de trabalhar) e tem desde há tempos uma nova relação.
já tem 3 filhos:
um homem maior de idade;
uma adolescente que deixou a escola sem completar a escolaridade obrigatória e que desde então trabalhou uma única vez, despedindo-se ao fim de poucos meses "porque tenho umas amigas, sabe como é". esta filha tem um namorado que, afirma, "tem vida fácil" e, mesmo sendo mais os dias em que se esquece de tomar a pílula do que aqueles em que se lembra, recusa um método contraceptivo que não dependa da sua memória, declarando que "se vier um bebé, que venha");
um rapaz ainda criança.
o que pode levar estas mulheres (mãe e filha) a desejar uma gravidez? muita coisa, eu sei. mas, Deus me perdoe, que eu só consigo pensar numa.
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pérolas ou pão? das barrigas cheias de tecnologia
pode parecer incrível, mas há um mundo de gente - incluindo crianças e adolescentes - que não têm computador, nem em sua casa, nem na de familiares, nem na sua sala de aula. é um mundo quase inimaginável, mesmo para mim que o constatei entre os colegas da escola onde o meu filho andou até ao ano passado. são pessoas que não falam a linguagem do mundo actual e que, assim prosseguindo, só à margem poderão encontrar um lugar para si.
no entanto,
continuam a surgir vozes
desdenhando da iniciativa que tem facilitado aos estudantes a aquisição de computador com acesso à internet: alertam-nos para os perigos da tecnologia e avisam-nos que não será ela a salvar o ensino nem o mundo. sim, eu também fui feliz e fiz o meu curso sem computadores. mas isso foi naquele tempo: de lousas, sebentas de papel barato e penas de aparo metálico que se molhavam no tinteiro. sim, eu também doseio todos os dias as horas que os meus filhos passam no computador (e na TV e na play-station). sim. sim, quem dera que o que quer que fosse salvasse o mundo.
só não acho bonito desdenhar assim, de barriga cheia de tecnologia, desvalorizando a possibilidade, assim oferecida, a mais alguns de correrem connosco na posse de um mínimo de ferramentas (e quase insinuando que oferecer um computador a algumas pessoas será como dar pérolas a porcos).
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outra espécie de seres vivos

está dado mais um passo para que todo o país evolua à semelhança de Vila Nova de Gaia, Felgueiras, Oeiras ou a Madeira. é o despontar de uma nova era: batráquia, selvagem, difícil de engolir.
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não gostei
de Ricardo Costa a entrevistar Sócrates, agorinha, na SIC. várias respostas do primeiro-ministro foram cortadas com argumentos de que não havia tempo e havia outros assuntos a abordar. no entanto, após cada pergunta inicial, não havia a agilidade da contra-pergunta a procurar, com elegância, as falácias e as fragilidades do rol de benefícios enunciados. chegou mesmo a enveredar pela questão com alfinetada incorporada ("leu a entrevista de Manuel Alegre? Não vai dizer que concordou..."). uma postura lamentável para um jornalista de quem se esperava mais, nomeadamente que fosse capaz de não deixar de transparecer as suas opiniões e embirrações pessoais.
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