privilégios
- ter trabalho (desde o dia em que quis trabalhar e, muito provavelmente, até à reforma, viver nessa confiança)
- achar que se faz bem o que se faz e ter-se gosto nisso
- um dia, todos os meses, ter um salário, considerado justo
- poder trabalhar parte do horário em casa
- poder escolher uns dias trabalhar mais para, noutros, sair mais cedo ou entrar mais tarde (ganhar nisso uns pedaços de manhã na cama ou uns fins de tarde ao borralho, ou na rua, buscar filhos à escola, acompanhar os TPC ou sair de casa sem destino)
se pudesse, partilhava estes meus privilégios neste Natal
Etiquetas: trabalho
ofício de cuidar

"Tens uns pés mesmo cansados" disse a minha filha I. enquanto me calçava as havaianas que lhe pedi quando ontem à noite cheguei a casa. eu não tinha dito nada, embora sentisse, não os pés, mas todo o meu ser espalmado e batido. não sei se terá sido o tom da minha voz, se mesmo o aspecto dos meus pés, a denunciar esse cansaço. mas fiquei abismada como a I., nos seus 8 anos tão alegres como despreocupados, percebeu tudo e, numa frase, me tirou meia tonelada de cima.
tenho às vezes a impressão que o futuro desta filha passará (ou poderia passar) por uma profissão de cuidar. como a minha. mas com 8 anos eu ainda não cuidava assim.
Etiquetas: filhos, trabalho
gripe A: paciência, tranquilidade, bom senso e ciência
sobre a gripe A, mais uma vez o Prof. Juan Gérvas (que já
aqui e
aqui apresentei) nos tranquiliza: não estamos a delirar, é verdade, o rei vai nu. as provas estão na página da
Equipo Cesca, com direito a actualização frequente (em cerca de 1 mês já vai na 9ª versão) e a tradução para português (a disponível já é de há 10 dias, da 7ª ou 8ª versão, pelo que os preciosistas devem ler a versão em castelhano).
Etiquetas: actual, Juan Gervas, trabalho
terceiro mandamento
nunca fui workaholic (preciso tanto de descanso que estou naturalmente protegida disso) mas nos últimos anos adquiri um vício horrível: aproveitar os fins-de-semana para trabalhar em casa. são quase sempre pequenas coisas que vou deixando durante a semana e às vezes grandes coisas que o ritmo da semana não me permite sequer pegar. a maioria das vezes feitas aqui no portátil aos bochechos durante todo o fim-de-semana, entremeadas com tarefas domésticas próprias dos dias de lazer (em que se cozinha mais, se desarruma mais, se perde mais tempo em compras) e resultando invariavelmente numa dificuldade em me decidir começar a fazê-las no sábado, ante a perspectiva de dois dias cansativos, e numa sensação de estafa de domingo à noite, agravada pela constatação repetida de que, de tudo o que precisava fazer, metade não chegou a realizar-se. e na segunda-feira volta tudo ao princípio, semana após semana e só nas férias, 2 quinzenas por ano, páro realmente os motores e desligo.
mas há tempos, decidi mudar. foi tão simples como ouvir a explicação do 3º mandamento e pôr-me a pensar nisso. não só Deus descansou ao 7º dia, vendo que o que tinha feito era bom, mas o shabat dos judeus pode ser lido como uma espécie de comemoração da liberdade adquirida após a fuga do Egipto: depois da escravatura, um dia, em cada 7, lembrava-lhes que eram livres (livres de descansar e livres de rezar). fiquei presa a esta ideia, da celebração da liberdade que temos e pela qual afinal trabalhamos tanto. e decidi que era importante ter este ciclo mais curto e mais definido: um dia por semana para me dedicar ao essencial, a tudo o que não me vem do trabalho nem compro com dinheiro.
foi assim que ontem me disciplinei para despachar o mais possível do que tinha pendente para, assim, hoje, domingo, me poder entregar à minha liberdade: andei nos blogs, coisa que há meses não fazia, li jornais, e estive na mesma imenso tempo no portátil (ainda tenho que aperfeiçoar esta minha capacidade de entrega ao essencial) mas sempre com a sensação de que na verdade, não tinha nada para fazer, não hoje, e que, por isso, tinha tempo para tudo.
Etiquetas: fé, trabalho
"A questão é diferente na biologia, a disciplina mais"
excerto injusto (mas é a regra da cadeia de palavras em que me apanharam) de um livro tão frondoso de ideias como uma árvore no fim da Primavera: O Eco Silencioso, de João Lobo Antunes (Gradiva, 2008). é por essas zonas que tem andado o meu silêncio, ávido de pensar e investir o trabalho.
preferia ter transcrito as últimas linhas do primeiro texto do livro: "De facto, nesta memória falada, a que responde, em silêncio, um eco interior, há algo de esquivo, de intangível, que me obriga a procurar como de facto a medicina me fez médico."
e tu Helena, queres transcrever-nos a 5ª linha da página 161 do livro que andas a ler?
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antes das férias
hoje deixar devagar o trabalho, tudo acabado, cada coisa no seu sítio. especialmente arrumados os processos de dois doentes que sei não vou reencontrar quando voltar. menos arrumada a conversa: quase como se faltasse um telefonema, uma despedida (impronunciável).
Etiquetas: trabalho
lockdown II

colaboro, diariamente noutro sistema em lockdown. tento periodicamente abanar a estrutura, acredito que um dia ela se abrirá e será forçoso que se restaure a normalidade, e a liberdade. sobre este é-me mais complicado falar aqui. os sistemas em lockdown protegem-se com uma camada final que é o
"impedir que isto se saiba", ou impedir que isto se fale (porque na verdade, saber, muita gente sabe).
Etiquetas: trabalho
estado-esmola
na Pública do passado Domingo foi publicada uma impressionante reportagem de Ana Cristina Pereira sobre uma mulher do Bairro de Aldoar, espécie de santa protectora dos moradores. chama-se Esmeralda Mateus e, além da sua intensa actividade beneficente (pela qual foi, há dois dias, homenageada pela Câmara Municipal do Porto), é presidente da associação de moradores do bairro e representa o Bloco de Esquerda na assembleia de freguesia de Aldoar.

entre os seus protegidos, conta-se Laulau. Laulau é "um velho acamado" que vive com os seus 2 filhos deficientes num T2 deste bairro camarário. a jornalista acompanhou Esmeralda à casa de Laulau e a descrição é uma descida ao fundo dos infernos: o "cheiro nauseabundo", um velho doente que "escarra nas paredes", borra de café nas paredes e no chão, uma filha que "deita tudo no chão, mija em qualquer lado". Esmeralda recebe 200 euros por mês da Segurança Social "para aquilo estar limpo". "Vai lá três vezes por semana, limpa o pior (...). A mulher-a-dias vai com ela, cobra 30 euros por semana, limpa o resto. A mulher-a-dias está sempre a mudar. «Têm tanto nojo. O que lhes mete mais nojo são os escarros na parede». Há três meses que a Segurança Social não dá um tostão para a limpeza do apartamento de Laulau. É como se o tivesse esquecido. Esmeralda é que tem suportado os custos da mulher-a-dias, dos detergentes, de alguns medicamentos «para o velho não chorar de noite»".
é uma história que nos revolve por dentro mas tristemente é apenas uma entre muitas outras do Portugal tecnológico do século XXI, aspirante à vanguarda nos cuidados de saúde. são situações bem conhecidas de quem trabalha, por exemplo, num Centro de Saúde: pessoas tão dependentes como crianças entregues a si próprias (e à caridade de estranhos) num quase total alheamento do estado dito social, dito providência. digo quase total alheamento: por vezes há uma pensão, um dinheiro que chega erraticamente, ocasionalmente uma visita da assistência social ou até, como neste caso, um T2 gratuito. não interessa se o que dá é o que é preciso, se permite a cidadãos doentes, totalmente incapazes e vulneráveis, uma vida no limiar da dignidade. nada disso importa. o estado passa ao largo, dá o que pode, como uma esmola, como se a mais não fosse obrigado.
(citações são da reportagem mencionada, Pública de 20 de Abril de 2008; fotografia de Adriano Miranda, recortada da mesma reportagem)
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a Missão
nos últimos dias, a
Missão para os Cuidados de Saúde Primários tem aparecido nos jornais e merecido algumas frases em noticiários de TV. a Missão é a equipa encarregue de levar a cabo uma profunda remodelação dos cuidados de saúde em Portugal e, embora isso não seja nada que se compare ao resultado do benfica-sporting ou à crise do PSD, sempre é notícia se surge uma demissão (que não se concretizou), umas reuniões com a ministra da saúde e depois oito demissões, essas sim, concretas.
como me entristece que o momento mais promissor de sempre para o nosso sistema de saúde seja tão pouco notícia, e quase só o seja pelas piores razões, e como me irrita que às notícias disponibilizadas on-line e aos posts em blogs que as linkavam, prontamente surjam os comentários bélicos, mesquinhos, vendidos e anónimos do costume, apetece-me vir aqui dizer que apoio a Missão na sua tarefa.
a Medicina Geral e Familiar é a especialidade charneira dos cuidados de saúde primários e, sabemos hoje, os sistemas de saúde baseados nos cuidados de saúde primários são os mais eficientes e sustentáveis. o coordenador da Missão, o Dr. Luís Pisco, já há muitos anos que lidera os médicos de família (portugueses e europeus) na construção da MGF como uma área científica, uma filosofia e uma prática de excelência. sendo um médico, e não um político, agarrou a oportunidade que foi oferecida à MGF de se ver no centro das orientações nacionais de fundo para a saúde, participando do respectivo enquadramento normativo e legal.
oxalá a Missão continue a trabalhar pelo que a MGF acredita ser o melhor sistema de saúde para um país. é um trabalho complexo e que provavelmente nunca estará completo. mantenham os seus membros a sabedoria, a serenidade, a persistência e o desprendimento que o Dr. Luís Pisco tem revelado no seu percurso pela MGF.
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uma selva em vez de um país de cristal
é um menino de sete anos e a mãe conta que ele se queixa que lhe dói quando faz xi-xi. peço-lhe que faça um pouco num copinho para uma análise rápida e ele vai sozinho para a casa de banho enquanto a mãe fica à minha frente a arrastar palavras exaustas. não os conheço (é uma urgência de fim-de-semana) mas sinto que talvez seja esta mãe quem está verdadeiramente doente. passado um pouco ela vai juntar-se ao filho. demoram muito. chegam mais pacientes para consulta e eles sem regressarem com o copinho. é frequente as crianças demorarem nisto e decido avisá-los que irei vendo outros pacientes, que me avisem logo que tenham alguma coisa. encontro a mãe de cócoras no chão da casa de banho, aos gritos “eu não aguento mais”, o menino atónito e assustado, sentado na sanita em frente. falo devagar e baixinho, que espero por eles, que levem o seu tempo, que bebam um pouco de água, que compreendo o rapaz, nem sempre se consegue quando se quer.
duas consultas depois vêm de copo quase cheio. a mãe pede desculpa pela cena de há pouco, mas é que se sente tão cansada que acha que não aguenta: "o pai sempre fora, os filhos sempre doentes". peço-lhe que não chame doença a isto, que é uma situação banal e se resolve facilmente. depois conta que o menino na escola se recusa a ir ao wc. e o que é que se passa nos wc da escola para o menino ter medo de lá ir? sabemos que esses são frequentemente sítios de violência contra o mais pequenos. e ela conta, que sim, que lhe amarraram o filho, o vendaram e lhe raparam o cabelo. e que foi à escola e exigiu que se identificassem os alunos responsáveis mas foi avisada que os respectivos pais nunca compareceriam; que falou ela própria com a mãe de um deles e que teve de ser salva por outras mães pois ia sendo também agredida. que se juntou a outros pais, falaram aos responsáveis da escola e fizeram colóquios sobre o bullying, mas que a violência continuava. alguns dias atrás uma aluna do 6º ano tinha precisado de socorro hospitalar depois de ser violentamente agredida.
as palavras saem-lhe cada vez mais exaustas mas quando a olho vejo uma mulher como eu – o mesmo instinto de protecção das crias, a mesma força, a mesma fragilidade – só que sem o dinheiro necessário a escolher uma escola para os seus filhos. e de como isto pode ser a diferença entre um país de cristal e uma selva.
quando diz que este filho é o mais novo e que com a mais velha foi um pouco mais fácil porque ela se sabia defender, e este não, “deixa-se ficar”, nesse momento começa o rapaz a falar “deixo-me ficar? Mas eu agora tenho uns paus e bato nos meninos todos”. e a mãe confirma que agora até já foi chamada porque o filho começou ele próprio a bater. mas aqui o menino já não a deixa falar e conta da pedra que arremessou, muito maior do que a lhe atiraram a ele; e dos vários paus de que dispõe e de como engana as empregadas para entrar pela janela no wc delas, mais seguro. e de como atirou um dos maus a abaixo de uma árvore. e não pára de falar enquanto a mãe se despede e o leva para fora do consultório.
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responsabilidades
completamente
de acordo com Eduardo Pitta: antes da responsabilidade política, que podemos exigir a ministros e suas comanditas, está a responsabilidade profissional, que começa em nós, passa pelos nossos directores de serviço e acaba outra vez em nós. estou a falar de médicos mas podia estar a falar de professores, ou de qualquer outra área onde as culpas costumem ser chutadas para canto. estou a falar de profissionais diferenciados que vivem em democracia e que deveriam sentir-se em absoluta responsabilidade, não só pelos actos, mas também pelas suas omissões.
se um doente cai de uma maca, a responsabilidade também é minha. se um aluno passa sem saber o indispensável, a responsabilidade também é de quem o passa. podemos ser pressionados, podemos ser mal amados, podemos até ser perseguidos. mas temos um trabalho a fazer, uma atenção a centrar: no paciente, no aluno. começar no nosso consultório, na nossa sala, no nosso pequeno mundo.
não fazer do nosso umbigo o nosso norte. mas depois ir mais longe. e fazer escolhas: pôr num dos pratos da balança o nosso conforto, a nossa inércia e conformismo. saber dizer não: assim não faço, assim não brinco. ter a coragem de falar, de ouvir, de exigir.
a vida é difícil (não vem pronta a ser vivida). e complexa (às vezes a melhor maneira não é evidente). se não somos parte da solução, somos parte do problema.
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o despudor

mais uma façanha
desta corporação a que sou obrigada a p€rt€nc€r: enviar aos seus involuntários sócios envelopes timbrados oficiais nos quais se inscreveram (como acima exposto) slogans da campanha eleitoral em curso (dentro não sei o que vinha). pelos meus cálculos, 90% do produto desta corporação é desta ordem - restando apenas 10% para aquilo que deveria ser o
o seu umbigo e o seu norte: a defesa do bom exercício da Medicina.
Etiquetas: trabalho
Juan Gervas, ainda
coisas deliciosas se encontram numa pesquisa Google com o nome deste homem livre. coisas como
esta:
"Hay médicos que (...) tienen cinco puntos cardinales de los que hablan todo el día: los pacientes, los profesionales auxiliares, la industria (farmacéutica, tecnológica y de gestión), los gerentes, y su ombligo. El tamaño del ombligo de algunos llega a ser gigantesco, sobre todo cuando adoptan la cultura de la queja y su llanto monótono y constante les nubla la vista para ver más allá de su sufrimiento profesional. Lo que es peor, su ombligo se convierte en su norte. Olvidamos así que el norte del médico debería ser el paciente."
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exercício de pensar
não resisto a deixar-vos aqui
o caminho para um texto que é uma fonte de água pura no lago lodoso que tem sido a mediatização da vacina dita contra o cancro do colo do útero. publicado embora numa revista médica (e em castelhano!), a sua escrita é tão fluente, tão despudorada e descomprometida, que ilumina mesmo os leigos, empurra o mais lerdo para o exercício de pensar. abre uma clareira na selva densa da propaganda médica. faz um silêncio revelador no ruído infernal da demagogia.
o seu autor, Juan Gervas, é médico de família numa zona rural de Espanha. pensador e homem de ciência, fez da sua vida uma cruzada pelo posicionamento da inovação e da tecnologia médicas no seu devido lugar. dedicou-se a questionar a utilidade real (isto é, o benefício concreto para as pessoas e para os doentes) de atitudes e procedimentos médicos, nos quais, não raro, são investidos recursos avultados sem que haja evidência científica que o sustente. Juan Gervas é, além disso, um colosso vivo, um monstro da comunicação (a ponto de ter de me beliscar quando um dia me vi entre uma assembleia de congressistas perante a qual ele falou mais de meia hora, de pé, sem microfone, sem powerpoint, usando apenas, segundo as suas palavras, o meio audiovisual mais antigo do mundo: o teatro).
mas o que mais impressiona em Juan Gervas, o que nele marca o nosso pensamento - como um ferro em brasa - é a sua nítida e absoluta liberdade. pensa-se melhor depois de o conhecer: é-se mais inteiro, mais exigente; as verdades que nos vendem deixam-se radiografar, desmontar e conhecer (e, por vezes, transformam-se em falácias).
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"abuso de poder corporativo"
Vital Moreira hoje (
no Público, só disponível para assinantes) a chamar as coisas pelos seus nomes e a aliviar-me um nadinha a sensação de impotência que tenho por ser obrigada a pertencer a uma corporação com cujas posições não me identifico a maioria das vezes.
essa corporação tem-se esquecido de reformular um código deontológico com mais de vinte anos que, entre outras atrocidades, considera infracções gestos que para muitos membros (e para a lei portuguesa) são cuidados de saúde. não só se tem feito de esquecida, como agora se indigna como uma virgem pelo facto do ministro da saúde ter sugerido que estava na hora da revisão (aliás reclamada por muitos membros).
Vital Moreira informa-nos: "A Ordem dos Médicos não é uma associação privada e voluntária de médicos, mas sim, tal como todas as corporações profissionais públicas, uma instituição oficial, criada pelo Estado, de inscrição obrigatória para o exercício da profissão, com jurisdição universal sobre todos os médicos, dotada de poderes públicos, incluindo o poder regulamentar e o poder disciplinar. Como todas as demais entidades públicas, as ordens profissionais só têm os poderes que lhes sejam conferidos por lei. O seu poder normativo, que deriva da lei, está sujeito à lei e não pode contrariar a lei."
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o complex do simplex
fui hoje forma(ta)da para aquela que, pelos vistos, é considerada "
uma das medidas mais emblemáticas" do programa Simplex: a marcação (a partir do Centro de Saúde) de 1ªs consultas hospitalares por via electrónica. saudando, evidentemente, o princípio da ideia (informatizar, informatizar, informatizar), que permitirá curar muitas maleitas de que padece o actual sistema (de cartinhas para cá e para lá), além de permitir, por exemplo, que um dia se possa saber,
afinal, quantos pacientes esperam há quanto tempo por cada consulta hospitalar,
saudando, evidentemente, a ideia, fico abismada e incrédula
(e a bradar aos céus)
por, para a referida marcação electrónica, o Ministério da Saúde ter adquirido uma aplicação informática nova, diferente da usada no meu dia-a-dia para todas as restantes tarefas da consulta (e que até já continha parte das tarefas agora propostas).
assim: quando esta "emblemática" medida de simplificação entrar em vigor eu vou trabalhar com 2 aplicações em simultâneo. numa tenho uma agenda, faço registos clínicos, arquivo o historial dos pacientes, emito receitas e credenciais várias e uso um sem fim de instrumentos úteis à consulta. noutra, peço consultas hospitalares: abro uma nova e sofisticada aplicação onde os necessários dados clínicos do paciente terão de ser inseridos de novo (digitando-os ou fazendo todos os copy-paste necessários). simplicíssimo, não? (é que deve ser mesmo muito difícil introduzir mais essa função na aplicação anterior)
não, ainda não me acredito. e não, não é asneira própria deste ou daquele governo. isto só pode estar inscrito (em papel azul e devidamente carimbado) no DNA lusitano.
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há dias assim
há dias que parecem jornadas por campos minados: o mundo em ruínas de um homem que chora; a cegueira de outro que procura uma mulher perdida; a dor lenta de crianças abandonadas que não é possível resgatar; a miséria de um velho que ainda é pai de um homem louco.
sobrevivo aos impactos como a pequenos abanões, só uma ou outra sacudidela mais violenta - sigo blindada na minha felicidade, na minha segurança -. só quando tiro a bata é que o sinto: venho moída. pisada. exausta.
Etiquetas: trabalho
a pólvora
olha, descobriram agora o faz-de-conta que é a existência de listas de espera infinitas para algumas especialidades. escandalizam-se com 90000 à espera de uma consulta de Oftalmologia e esquecem-se de dizer que a esses 90000 havia que somar todos aqueles que todos os dias os médicos de família não enviam à consulta hospitalar por saberem que simplesmente não há resposta.
Oftalmologia, como a Estomatologia, é um cancro nacional. depois há tumores mais ou menos localizados: Dermatologia, por exemplo, no concelho em que trabalho simplesmente não há (mais uns quantos que todos os dias não vão engrossar o amazonas que é também esta lista de espera). outras especialidades fingem que existem, mas depois levam mais de um ano a marcar uma consulta: Cardiologia, Imunoalergologia, etc.
depois dizem que em Reumatologia a espera é mínima: falta dizer que como só há consultas desta especialidade em 3 ou 4 hospitais do país, a maioria dos doentes deste foro nunca é encaminhada.
mas não há razões para alarme. segundo a Dra. Carmo Pignatelli (notícias de hoje na TV), os números não são exactos: alguns hospitais nem sequer responderam (presumimos que aqueles com diminutas listas...); alguns doentes já terão tratado da saúde na medicina privada; outros ainda, até já morreram, enquanto esperavam. não há quaisquer razões para alarme, portanto.
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país do medo

venho de uma viagem aterradora ao país do medo: o país onde se fala a língua do "e se?"
e se um filho me adoecesse sem remédio? e se tivesse de sofrer, muito, já? e se ele deixasse de ser capaz das coisas de que hoje faz os seus dias? e se eu não pudesse trabalhar para ficar ao seu lado (que seria dos outros que somos nós)? e se agora nos coubesse a nós uma tragédia?
foi a primeira vez que fiz nessa viagem: nem dei conta que a iniciava (empurrada por uma antiga e dolorosa história do meu mundo de trabalho), despenhando-me por um abismo em direcção a uma dor hipotética e insensata mas que usava, claramente, a minha cara, como se me esperasse há muitos anos. não fez sentido, mas percorri esse caminho.
felizmente, em menos de 24 horas, estava a regressar ao mundo concreto e afortunado que é o meu. em menos que um dia todos os meus problemas se transformaram em meros contratempos, todas as dores em deliciosas provas de vida, todos os minutos em pérolas, todos os raios de sol em outonos luminosos e eternos. todas as crianças em filhos de alguém. todos os pacientes à minha espera no consultório em pessoas a precisarem de um empurrão urgente, abismo acima, para desaprenderem, longe do medo, a linguagem maligna dos "e se?". de volta ao presente, recuperando o futuro.
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incentivos à natalidade
uma mulher de 40 e tal anos que em tempos fez laqueação de trompas pergunta como pode fazer para engravidar outra vez. está a trabalhar há uns meses e queixa-se de andar muito "
cansada e stressada" porque é a primeira vez na vida que está a trabalhar fora de casa (digamos que trabalhar
também lhe mete muita impressão). nos últimos anos e até começar a trabalhar vivia do rendimento mínimo. está separada do pai dos seus filhos (que, afirma, nunca foi homem para ela pois não gostava de trabalhar) e tem desde há tempos uma nova relação.
já tem 3 filhos:
um homem maior de idade;
uma adolescente que deixou a escola sem completar a escolaridade obrigatória e que desde então trabalhou uma única vez, despedindo-se ao fim de poucos meses "porque tenho umas amigas, sabe como é". esta filha tem um namorado que, afirma, "tem vida fácil" e, mesmo sendo mais os dias em que se esquece de tomar a pílula do que aqueles em que se lembra, recusa um método contraceptivo que não dependa da sua memória, declarando que "se vier um bebé, que venha");
um rapaz ainda criança.
o que pode levar estas mulheres (mãe e filha) a desejar uma gravidez? muita coisa, eu sei. mas, Deus me perdoe, que eu só consigo pensar numa.
Etiquetas: política, trabalho