segunda-feira, maio 01, 2017

caminho do Jacinto

o Douro de Eça aqui tão perto! 'A cidade e as serras' lidas in loco em 24 horas, caminhadas como Jacinto as terá caminhado - imaginar a subida com as fatiotas da época, o transporte impensável dos seu haveres parisienses serra acima -, as aldeias miseráveis pelo caminho, o arroz de favas soberbo lá em cima (ah! o arroz de favas... em casa tentado mas nunca conseguido tão soberbo como o que foi lido), a Casa de Tormes tão real e plausível.

Douro 2016

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sábado, agosto 16, 2008

o céu sobre Portugal

esta noite dormi rente ao céu



guiada e velada por anjos

num redor de bíblicas oliveiras


espécie de vertigem acordar ali

Albergaria Nª Srª do Sameiro**** (totalmente remodelada em 2007)
quartos duplos a 55 euros (juro!)


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sexta-feira, junho 20, 2008

peço desculpa por esta interrupção

ando em viagem pelo país das repartições e serviços. em que posso ajudá-lo? muito obrigado por ter aguardado sra. Mónica. pode dar-me o seu código de identificação? faz favor? não é aqui: vira à esquerda e é a 2ª porta à direita. pois, pois, lá do call-center mandam sempre as pessoas para aqui, mas não é aqui. multibanco? não temos. só dinheiro ou cheque. livro de reclamações? não damos, não é a titular do contrato, só pode escrever nesta folha. a empresa que vos administrava o condomínio deixou a conta a zero, as contas por pagar, o prédio sujo, sem seguro e às escuras? temos que pedir um parecer jurídico para vos deixar mexer na conta, pôr lá dinheiro e pagar as dívidas. e é preciso que a vossa eleição venha no livro de actas. também vos ficaram com o livro de actas? temos de pedir um parecer jurídico. e é preciso o cartão de pessoa colectiva. também vos ficaram com o cartão? têm de pedir um novo. não, o cartão de pessoa colectiva não é aqui nas finanças, é no ministério da justiça. é, é aqui no ministério da justiça mas tem de ligar para o registo nacional de pessoas colectivas. 2ª via de um cartão? tem de nos enviar um modelo 10 preenchido, um cheque de 14 euros e fotocópia do BI. se pode se tratado no Porto? não, não, só aqui em Lisboa. o modelo 10? compra numa conservatória do registo comercial. não, não se pode descarregar na internet. conservatória do registo comercial: tire a senha A para impressos, registo e informações. 50 minutos depois: 1 modelo 10? são cinquenta cêntimos por favor.

o blog e o século XXI seguem dentro de momentos.

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terça-feira, junho 10, 2008

triste dia de Portugal

estou aterrada com o que tenho sabido do protesto dos camionistas. afinal, ainda se faz tábua rasa da civilidade e dos direitos (alheios) e deveres (próprios). aquela que dizem ser a garantia das gerações do pós 25 de Abril (a liberdade), afinal, não pode ser dada como adquirida.

é possível em pleno século XXI, numa democracia madura de 34 anos, num orgulhosamente europeu estado de direito, um bando de homens emboscarem estradas, vandalizarem camiões e ameaçarem e agredirem quem não age como eles. e é possível, não só fazerem-no, como usufruirem de uma assustadora impunidade ao agirem perante as autoridades presentes (a GNR) e perante um país sentado impávido (ou direi antes: anestesiado de bola?) do outro lado das câmaras de TV.

num instante, os nossos ditos brandos costumes transformam-se no horror daquilo que o Homem ("se isto é um homem"), esse péssimo selvagem, tem de pior. a cegueira que nos toma quando a nossa razão é maior do que a dos outros. não podia ser mais: triste este dia de Portugal. triste este dia para Portugal.

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quinta-feira, maio 15, 2008

o cigarro de Sócrates

a lolita a pôr as coisas no seu lugar:
"(...) Não esqueçamos: trata-se de um cigarro fumado dentro de um avião, a caminho de um país governado por um tiranete poderoso, que se fosse português seria comparável a um Ferreira Torres no perfil moral e a um Valentim Loureiro na boçalidade. Ou vice-versa. (...)"


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segunda-feira, maio 05, 2008

um retrato do trabalho do meu pai

hoje no Abrupto.

arrepio.

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sábado, abril 26, 2008

estado-esmola

na Pública do passado Domingo foi publicada uma impressionante reportagem de Ana Cristina Pereira sobre uma mulher do Bairro de Aldoar, espécie de santa protectora dos moradores. chama-se Esmeralda Mateus e, além da sua intensa actividade beneficente (pela qual foi, há dois dias, homenageada pela Câmara Municipal do Porto), é presidente da associação de moradores do bairro e representa o Bloco de Esquerda na assembleia de freguesia de Aldoar.

entre os seus protegidos, conta-se Laulau. Laulau é "um velho acamado" que vive com os seus 2 filhos deficientes num T2 deste bairro camarário. a jornalista acompanhou Esmeralda à casa de Laulau e a descrição é uma descida ao fundo dos infernos: o "cheiro nauseabundo", um velho doente que "escarra nas paredes", borra de café nas paredes e no chão, uma filha que "deita tudo no chão, mija em qualquer lado". Esmeralda recebe 200 euros por mês da Segurança Social "para aquilo estar limpo". "Vai lá três vezes por semana, limpa o pior (...). A mulher-a-dias vai com ela, cobra 30 euros por semana, limpa o resto. A mulher-a-dias está sempre a mudar. «Têm tanto nojo. O que lhes mete mais nojo são os escarros na parede». Há três meses que a Segurança Social não dá um tostão para a limpeza do apartamento de Laulau. É como se o tivesse esquecido. Esmeralda é que tem suportado os custos da mulher-a-dias, dos detergentes, de alguns medicamentos «para o velho não chorar de noite»".

é uma história que nos revolve por dentro mas tristemente é apenas uma entre muitas outras do Portugal tecnológico do século XXI, aspirante à vanguarda nos cuidados de saúde. são situações bem conhecidas de quem trabalha, por exemplo, num Centro de Saúde: pessoas tão dependentes como crianças entregues a si próprias (e à caridade de estranhos) num quase total alheamento do estado dito social, dito providência. digo quase total alheamento: por vezes há uma pensão, um dinheiro que chega erraticamente, ocasionalmente uma visita da assistência social ou até, como neste caso, um T2 gratuito. não interessa se o que dá é o que é preciso, se permite a cidadãos doentes, totalmente incapazes e vulneráveis, uma vida no limiar da dignidade. nada disso importa. o estado passa ao largo, dá o que pode, como uma esmola, como se a mais não fosse obrigado.

(citações são da reportagem mencionada, Pública de 20 de Abril de 2008; fotografia de Adriano Miranda, recortada da mesma reportagem)

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sábado, abril 19, 2008

a Missão

nos últimos dias, a Missão para os Cuidados de Saúde Primários tem aparecido nos jornais e merecido algumas frases em noticiários de TV. a Missão é a equipa encarregue de levar a cabo uma profunda remodelação dos cuidados de saúde em Portugal e, embora isso não seja nada que se compare ao resultado do benfica-sporting ou à crise do PSD, sempre é notícia se surge uma demissão (que não se concretizou), umas reuniões com a ministra da saúde e depois oito demissões, essas sim, concretas.

como me entristece que o momento mais promissor de sempre para o nosso sistema de saúde seja tão pouco notícia, e quase só o seja pelas piores razões, e como me irrita que às notícias disponibilizadas on-line e aos posts em blogs que as linkavam, prontamente surjam os comentários bélicos, mesquinhos, vendidos e anónimos do costume, apetece-me vir aqui dizer que apoio a Missão na sua tarefa.

a Medicina Geral e Familiar é a especialidade charneira dos cuidados de saúde primários e, sabemos hoje, os sistemas de saúde baseados nos cuidados de saúde primários são os mais eficientes e sustentáveis. o coordenador da Missão, o Dr. Luís Pisco, já há muitos anos que lidera os médicos de família (portugueses e europeus) na construção da MGF como uma área científica, uma filosofia e uma prática de excelência. sendo um médico, e não um político, agarrou a oportunidade que foi oferecida à MGF de se ver no centro das orientações nacionais de fundo para a saúde, participando do respectivo enquadramento normativo e legal.

oxalá a Missão continue a trabalhar pelo que a MGF acredita ser o melhor sistema de saúde para um país. é um trabalho complexo e que provavelmente nunca estará completo. mantenham os seus membros a sabedoria, a serenidade, a persistência e o desprendimento que o Dr. Luís Pisco tem revelado no seu percurso pela MGF.


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domingo, janeiro 27, 2008

sociologia instantânea II

os colegas da primária do meu pai, nos arredores do Porto, anos quarenta. 60 e tal rapazes (distingo também 2 raparigas), a um passo de se tornarem homens: calculo que, tal como aconteceu com o meu pai, muitos começariam a trabalhar pouco depois, com apenas 10, 11 anos. alguns calçam socas. o meu pai, em cujo olhar vejo, assombrada, o meu próprio filho, usa uma corda à laia de cinto.

comove-me este rapazinho que foi o meu pai. comove-me saber que, partindo deste quase nada, ele tenha conseguido, três décadas depois, que na minha fotografia, eu aparecesse no outro lado do destino.


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sábado, agosto 04, 2007

férias II


os meus filhos mal conhecem a cidade (e o país) onde nasceram. filhos de pais viciados em sossego, que desleixam os fins-desemana pelos sofás e que, no primeiro dia de férias, rumam céleres a um apartamento junto ao mar (de preferência sempre o mesmo), chegaram aos 9 e aos 6 anos de idade sem nunca terem passeado na Ribeira ou nos Aliados, visitado um museu ou um monumento, sequer saboreado o improviso que só as férias permitem entre amigos e família.

mas neste Agosto tomamos uma atitude: já visitamos um museu a 50 metros de casa (com o nome e o espólio de uma sua antepassada), ontem subimos os 225 degraus da Torre dos Clérigos e passeamos no Jardim Botânico. também saboreamos manhãs (o que nos é absolutamente inédito) de praia com os amigos, reencontrando-os depois ao longo do dia e com eles ficando pela noite fora, entre petiscos, conversas e risos de crianças.

esperam-nos ainda o Museu do Carro Eléctrico, o Planetário, algumas festas de anos, o Castelo de Guimarães, os amigos no Alentejo, o Oceanário, o Jardim Zoológico, os pastéis de Belém, Sintra e as praias a sul.

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domingo, abril 29, 2007

ainda o nosso retrato social


na terça-feira passada segui tranquila para a festa de aniversário (surpresa) da G, sabendo que podia mais tarde ver o episódio do retrato social do António Barreto aqui (indicação preciosa do J.). guardei-o para o degustar hoje ao pequeno-almoço (café escuro, torrada de manteiga e sumo de laranja).

mais uma vez me comovi até às minhas raízes: até zonas de mim que desconhecia. as imagens dos homens (tão novos) que partiam para a guerra; as histórias das mulheres que a nada tinham direito e, no entanto, sustinham o todo da vida familiar; o enunciar daquilo que, concretamente, lhes era vedado (perceber melhor as histórias de mulheres que ouço no consultório). um incómodo brutal por ter sido sujeita a isto (mesmo sendo criança) e por ter sido tão feliz enquanto assim viviam a minha mãe, as minhas avós, o meu tio que esteve na guerra, e tantos outros que sobreviveram a essa realidade que se me afigura insuportável.

comoção repetida, a que me vem habituando este documentário e que tem produzido o efeito inquietante de aumentar a minha tolerância às imperfeições e às eternas limitações do meu país e do seu povo.

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terça-feira, março 27, 2007

o retrato de Portugal

tropecei na televisão com o retrato de Portugal de António Barreto: eu reconheci aquele país pobre, de pés descalços, fascista, rural, infectado, esfaimado... é o país da minha infância e lembro-me de tantas dessas coisas: da cólera quando andava na primária, da roupa que usavam as minhas colegas desses anos, dos penteados da minha mãe - irremediavelmente parecida com todas a mulheres bonitas que apareciam naqueles filmes dos anos 60 -, da fotografia do Américo Tomaz na sala de aula.

fiquei a ver até ao fim, de pé no meio da sala, a meio de ir fazer outra coisa qualquer e sempre à espera de ver a seguir passar algum dos nossos amigos, a roullotte em que seguíamos de férias ou o NSU da família.

no fim fiquei adoentada com este retrato: nostálgica (não do que havia ou deixava de haver, mas do tempo que passa para sempre); incomodada, isso sim, com alguns caminhos que percorremos. porque como dizia AB, nem sempre se muda para melhor. nem sempre o que é mais seguro e mais limpo e menos pobre nos faz pessoas mais inteiras e mais felizes. e isso é muito complicado de perceber.

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domingo, junho 25, 2006

ponte das três entradas

















ponte que dizem única em Portugal: sobre a foz do rio Alvôco no rio Alva, espécie de Y sobre outro Y, este invertido, unindo as três porções de terra que marginam cada braço dos dois rios.















(este blog quase que se chamou assim)

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quinta-feira, maio 04, 2006

a quem interessa Portugal?

este era o título do dia no jornal (que imagino gratuito) que pela manhã todos lêem no metro. sem distribuição na minha estação, habituei-me a lê-lo assim, só de raspão, por cima do ombro dos passageiros adjacentes. o destak de hoje era este, absolutamente fantástico.

fez-me lembrar a história que, li no Bloguítica, terá sido publicada no Expresso: o menino que nos cartazes do 25 de Abril de há 30 anos enfiava um cravo numa espingarda foi viver para Inglaterra e nunca sequer chegou a votar em Portugal.

entretanto pode ler-se na Origem das Espécies algo sério sobre este título que me inaugurou o dia.

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