domingo, maio 18, 2008

não, não sou a única

quando às vezes parece que se é um caso isolado (cá em casa sou), é bom perceber que não sou a única. e, portanto, há esperança.

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quinta-feira, maio 01, 2008

"A geração de Abril ou os velhos do Restelo que se seguem"

Tiago Tribolet de Abreu* no Público de hoje:

"A geração de Abril anda a dar cabo de mim. A geração de Abril é formada por aqueles que tinham entre 20 e 30 anos na altura do 25 de Abril de 1974. Por isso lembram-se bem do período pré-revolucionário, viveram com grande intensidade a revolução e com frequência tomaram parte em alguns eventos desse período excitante. Muitos licenciaram-se na altura, com fáceis "passagens administrativas", tendo adquirido questionáveis competências profissionais. Têm agora entre 55 e 65 anos. São os chefes e directores dos serviços e departamentos da actualidade.

No entanto, têm uma grande incapacidade para exercerem a autoridade. No seu subconsciente, um chefe que se assume como o responsável máximo, que coordena, orienta, vigia e ordena o funcionamento das coisas é fascista. É fascista porque é autoritário, déspota e não dialoga, não busca consensos, não contemporiza. E por isso a geração de Abril chefia e dirige os serviços e departamentos de uma forma indefinida. Ou apenas marcam presença e deixam as coisas em autogestão. Ou delegam noutros as diversas funções que lhes caberiam a si.

A geração de Abril acha que "as bases", que "o povo" é que deve tomar as rédeas e auto-organizar-se. A geração de Abril não se sente bem a organizar e a dirigir as bases. E, por isso, continuamos como nos descreviam os romanos: "Um povo que não se governa nem se deixa governar." E, no entanto, no século XVI, Camões dizia "que um fraco Rei faz fraca a forte gente". E o general Beresford, no século XIX, tecia rasgados elogios aos soldados portugueses e, já então, concluía que a nós só nos faltava liderança competente.

A geração de Abril viveu a conquista da liberdade. Arrumou na prateleira os velhos do Restelo da altura, e eles ficaram na prateleira a suspirar pelos "bons velhos tempos do fascismo", enquanto a geração de Abril experimentava o poder recém-adquirido da mudança. A geração de Abril gosta de lembrar às novas gerações como as coisas eram más antes de Abril, e como a situação actual representa um progresso tão grande sobre o tempo do fascismo. Sempre que as novas gerações se inquietam e se desagradam com o actual, e incomodam, impertinentes, com a vontade de mudar, de evoluir para mais acima, a geração de Abril, com paciência, mas também com um pouco de enfado, relembra como viemos lá de tão abaixo e, perante a agitação inquieta de quem não se satisfaz com o presente e quer mais, sempre mais, exclama: "Mas estamos tão bem, funcionamos assim há dez, 15, 20 anos, para quê mudar?"

E as novas gerações não querem saber das conquistas de Abril, da liberdade, dos "direitos adquiridos dos trabalhadores". Não querem saber do passado, querem o presente e o futuro. E bocejam, quando a geração de Abril insiste em falar, de forma incompreensível, em coisas que as novas gerações não conheceram: o PREC, o Grupo dos Nove, Vasco Lourenço, Salazar, Otelo, Marcelo Caetano, Spínola, 11 de Março, 25 de Novembro, direita, esquerda, reaccionário... O que foi tudo isto? E o que interessa hoje? E a geração de Abril, todos os anos, nas comemorações da revolução, suspira com a forma como as novas gerações se desligam dessa importante data. As novas gerações querem mais. Querem profissionalismo, eficiência, competência, mais do que ser de esquerda ou de direita ou convicções político-partidárias. Querem economia a crescer, mais do que "direitos adquiridos dos trabalhadores". Querem saber quem manda em quê, mas também quem é responsável por quê.

As novas gerações acham natural que todos se submetam à avaliação da qualidade e quantidade do seu trabalho. A geração de Abril considera a avaliação uma afronta e uma intromissão intolerável do "patronato" sobre "os trabalhadores". Mas as novas gerações nem sabem bem o que são "os trabalhadores", visto que todos trabalham, desde o marceneiro ao gestor da marcenaria, desde o repositor do supermercado até ao seu gerente.

A geração de Abril fica assustada quando se fala de formação, considera ridículo pensar em voltar a aprender, muitas vezes com pessoas muito mais novas, principalmente se essa aprendizagem envolver avaliação final. As novas gerações sabem que só um esforço contínuo em aprender, de preferência com avaliação repetida do que sabemos (para descobrir e corrigir o que não sabemos), é que poderá levar à realização e estabilidade profissionais.

A geração de Abril assusta-se com a possibilidade de despedimento na função pública. As novas gerações estão fartas da incompetência da função pública. A geração de Abril considera que a segurança no emprego é essencial. As novas gerações sabem que a segurança no emprego depende da evolução da economia e da competência de cada um naquilo que faz. Gostavam que a geração de Abril se ouvisse a si própria e se lembrasse do que ouvia aos dinossauros do regime, antes de Abril. Gostavam que a geração de Abril saísse da frente e deixasse a vida avançar. Porque sopram ventos de mudança, que já não são os de Abril, esses já sopraram, foram bons, úteis e importantes, mas pertencem ao passado e já não servem agora."

*Médico

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sábado, abril 19, 2008

a Missão

nos últimos dias, a Missão para os Cuidados de Saúde Primários tem aparecido nos jornais e merecido algumas frases em noticiários de TV. a Missão é a equipa encarregue de levar a cabo uma profunda remodelação dos cuidados de saúde em Portugal e, embora isso não seja nada que se compare ao resultado do benfica-sporting ou à crise do PSD, sempre é notícia se surge uma demissão (que não se concretizou), umas reuniões com a ministra da saúde e depois oito demissões, essas sim, concretas.

como me entristece que o momento mais promissor de sempre para o nosso sistema de saúde seja tão pouco notícia, e quase só o seja pelas piores razões, e como me irrita que às notícias disponibilizadas on-line e aos posts em blogs que as linkavam, prontamente surjam os comentários bélicos, mesquinhos, vendidos e anónimos do costume, apetece-me vir aqui dizer que apoio a Missão na sua tarefa.

a Medicina Geral e Familiar é a especialidade charneira dos cuidados de saúde primários e, sabemos hoje, os sistemas de saúde baseados nos cuidados de saúde primários são os mais eficientes e sustentáveis. o coordenador da Missão, o Dr. Luís Pisco, já há muitos anos que lidera os médicos de família (portugueses e europeus) na construção da MGF como uma área científica, uma filosofia e uma prática de excelência. sendo um médico, e não um político, agarrou a oportunidade que foi oferecida à MGF de se ver no centro das orientações nacionais de fundo para a saúde, participando do respectivo enquadramento normativo e legal.

oxalá a Missão continue a trabalhar pelo que a MGF acredita ser o melhor sistema de saúde para um país. é um trabalho complexo e que provavelmente nunca estará completo. mantenham os seus membros a sabedoria, a serenidade, a persistência e o desprendimento que o Dr. Luís Pisco tem revelado no seu percurso pela MGF.


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terça-feira, novembro 20, 2007

"abuso de poder corporativo"

Vital Moreira hoje (no Público, só disponível para assinantes) a chamar as coisas pelos seus nomes e a aliviar-me um nadinha a sensação de impotência que tenho por ser obrigada a pertencer a uma corporação com cujas posições não me identifico a maioria das vezes.

essa corporação tem-se esquecido de reformular um código deontológico com mais de vinte anos que, entre outras atrocidades, considera infracções gestos que para muitos membros (e para a lei portuguesa) são cuidados de saúde. não só se tem feito de esquecida, como agora se indigna como uma virgem pelo facto do ministro da saúde ter sugerido que estava na hora da revisão (aliás reclamada por muitos membros).

Vital Moreira informa-nos: "A Ordem dos Médicos não é uma associação privada e voluntária de médicos, mas sim, tal como todas as corporações profissionais públicas, uma instituição oficial, criada pelo Estado, de inscrição obrigatória para o exercício da profissão, com jurisdição universal sobre todos os médicos, dotada de poderes públicos, incluindo o poder regulamentar e o poder disciplinar. Como todas as demais entidades públicas, as ordens profissionais só têm os poderes que lhes sejam conferidos por lei. O seu poder normativo, que deriva da lei, está sujeito à lei e não pode contrariar a lei."

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terça-feira, maio 22, 2007

o Público: prémios do descalabro

- 1º foi o ombro do cão
- depois, o poema do Pessoa que Laurinda Alves descobriu mas afinal mais ninguém conhecia
- agora uma foto com autor é roubada na net para acompanhar um texto do ipsilon (porque era o aperto do fecho e o texto era secundário, alega o editor do suplemento depois de apertado pelo provedor)

será possível ir mais abaixo?

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domingo, abril 29, 2007

o ombro do cão

no jornal Público de sexta-feira passada, um jornalista e um cantor português detêm-se a analisar o poema da mais famosa canção de Jacques Brel (que o último anda a interpretar). tudo bem, não fora nenhum dos dois saber francês e ninguém no jornal se ter dado conta disso. vem tudo explicado na página do provedor do leitor publicada hoje: o desespero de amor que é querer ser o ombro do cão do outro (em lugar da sombra, "l'ombre").

é por estas e por outras que os jornais cada vez me dizem menos. tenho-os comprado mais nos últimos tempos, mais precisamente o Público (por causa da colecção de CD "50 anos de música") e cada vez tenho mais a sensação de que a irrelevância se avoluma e a imprecisão grassa: detecto-as fatalmente sempre que leio uma notícia de áreas que domino, como a saúde. tudo somado, não compensa o dinheiro gasto, o stress de o ler já que o comprei e, por fim, a maçada de transportar tanto papel para o ecoponto. tanto mais que a blogosfera oferece actualmente uma alternativa imensamente mais rica, mais ajustável (a la carte) e grátis.

fiquemos com Jacques Brel, para redenção de tanta barbaridade.

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sábado, setembro 02, 2006

em memória d'O Independente

O Independente foi para mim uma revelação: um jornal podia falar de coisas interessantes sem ser sisudo; podia fazer sonhar, como os livros; podia publicar fotografias malucas e poemas ou mesmo falar de música; em suma trazia-me todas as sextas as coisas que me fascinavam na época e que até então só surgiam impressas no underground (nos fanzines, por exemplo). tenho muitos recortes desses primeiros anos, a maioria à volta de textos de Miguel Esteves Cardoso (que era para mim a face / a escrita mais visível dessa descoberta).

soube agorinha, por este blog e por este, que o Independente acabou (hoje). e fiquei triste, embora já não me lembre há quantos anos deixei de o ler (só sei que foi antes de deixar de ler o Expresso). apesar de tudo, fiquei com pena, como quem lamenta morte de um amigo de juventude que acabou por se perder por maus caminhos e com quem nunca mais nos cruzamos; como se ainda esperasse que um dia, sei lá, pudéssemos voltar a estar juntos.

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