livros, restos de férias
primeiro apeteceu-me muito ler este livro. deve ter sido pelo prefácio de António Barreto: "(...) Não creio que exista período da vida mais insólito (...). As ambições são desmedidas. Os medos permanentes. Os atrevimentos excessivos. (...) Sofre-se em igual medida, com o amor e a falta dele. Fantasia-se, deseja-se e receia-se o sexo de que não se percebe nada. Os pais nunca compreendem. (...) Vive-se quase sempre à beira do desespero."
(nunca mais consegui ler António Barreto sem ouvir dentro de mim a voz magistral que nos fez o relato rocial de Portugal).
abri-o e fui logo à procura da infância de pessoas concretas: Rui Reininho, Margarida Pinto Correia, Raúl Solnado,o Maestro António Vitorino d'Almeida e a sua filha Inês, gente dos meus dias. mas, lido assim, o livro começou em desilusão: cada infância reduzida a 4 ou 5 páginas é quase nada e sabe a muito pouco. deixei-o de lado.
mas as férias avançaram e as leituras a bom ritmo levaram-me de novo ao livro. à segunda li-o a eito. e percebi: são os bocados das várias infâncias daquelas pessoas (pessoas do mundo da autora, Sarah Adamopoulos), todos juntos, que desenham o livro e nos contam inteira uma só história. passada num país de cristal.
Etiquetas: António Barreto, livros, país de cristal, Sarah Adamopoulos
ainda o nosso retrato social

na terça-feira passada segui tranquila para a festa de aniversário (surpresa) da G, sabendo que podia mais tarde ver o episódio do retrato social do António Barreto
aqui (indicação preciosa do
J.). guardei-o para o degustar hoje ao pequeno-almoço (café escuro, torrada de manteiga e sumo de laranja).
mais uma vez me comovi até às minhas raízes: até zonas de mim que desconhecia. as imagens dos homens (tão novos) que partiam para a guerra; as histórias das mulheres que a nada tinham direito e, no entanto, sustinham o todo da vida familiar; o enunciar daquilo que, concretamente, lhes era vedado (perceber melhor as histórias de mulheres que ouço no consultório). um incómodo brutal por ter sido sujeita a isto (mesmo sendo criança) e por ter sido tão feliz enquanto assim viviam a minha mãe, as minhas avós, o meu tio que esteve na guerra, e tantos outros que sobreviveram a essa realidade que se me afigura insuportável.
comoção repetida, a que me vem habituando este documentário e que tem produzido o efeito inquietante de aumentar a minha tolerância às imperfeições e às eternas limitações do meu país e do seu povo.
Etiquetas: António Barreto, Portugal, TV
o retrato de Portugal
tropecei na televisão com o retrato de Portugal de António Barreto: eu reconheci aquele país pobre, de pés descalços, fascista, rural, infectado, esfaimado... é o país da minha infância e lembro-me de tantas dessas coisas: da cólera quando andava na primária, da roupa que usavam as minhas colegas desses anos, dos penteados da minha mãe - irremediavelmente parecida com todas a mulheres bonitas que apareciam naqueles filmes dos anos 60 -, da fotografia do Américo Tomaz na sala de aula.
fiquei a ver até ao fim, de pé no meio da sala, a meio de ir fazer outra coisa qualquer e sempre à espera de ver a seguir passar algum dos nossos amigos, a roullotte em que seguíamos de férias ou o NSU da família.
no fim fiquei adoentada com este retrato: nostálgica (não do que havia ou deixava de haver, mas do tempo que passa para sempre); incomodada, isso sim, com alguns caminhos que percorremos. porque como dizia AB, nem sempre se muda para melhor. nem sempre o que é mais seguro e mais limpo e menos pobre nos faz pessoas mais inteiras e mais felizes. e isso é muito complicado de perceber.
Etiquetas: Américo Tomaz, António Barreto, minhas histórias, Portugal, TV