terça-feira, março 01, 2011

Borda D'Água


“(…) Para o ano de 2011, procurámos deixar as informações habituais, o calendário, as luas, o santo do dia, os feriados nacionais e religiosos, as festividades, as festas e feiras por todo o país e tantas outras coisas a que fomos tendo acesso. Nesta edição, os provérbios regressam para relembrar a tradição secular do povo português. Uma palavra muito especial aos lavradores, aqueles que diariamente convivem com a terra com as plantas e os animais e procuram ajuda na observação da Lua para orientar as suas plantações…”
A crise devolve-nos às coisas simples. Voltar a comer da terra, vestir a roupa das feiras, regatear os preços a moeda corrente, reiniciar a leitura da Lua, assentar juízo nos provérbios e, cabisbaixo nas leituras, voltar ao «Príncipe» de Maquiavel com um copo de vinho do produtor.

sábado, fevereiro 05, 2011

Tarefas da memória

Acredito no exercício da boa memória. Porque escolhi por opção o prazer das coisas boas, o beijo pendurado que ficou próximo de cumprir, o agasalho que ainda ofereces quando o vento obriga, a presença no almoço dos que falam de outros assuntos que nunca te ocuparam o teu registo de anos, os copos da rodada que tens de pagar, cumprir ritual, a prenda que deixas na nenhuma expectativa de quem a vai receber, discutir manchas na pele que te começam a manchar os teus 40 anos, a revolução de jasmim na Tunísia decalcada no nosso 25 de Abril.
A cabeça a trabalhar a boa memória. Ainda lembro sítios recorrendo sempre a mulheres velozes. Comigo foste feliz ali. Contigo fui feliz aqui. Cheiras a um perfume antigo. E os mapas que sabemos em pormenor quando fomos apenas electrões de valência, energia do andar às voltas da vida. E a sombra das árvores que nos fizeram ficar. E as marés que nos passaram entre os dedos, nós que nunca fomos de maresia, não fosse o sal que resistia no teu olhar. E o anel e o brinco que dataram tempos onde éramos apenas barcos de velejar. E aquele crescente da lua que iluminou o teu rosto na janela da casa da eira, tão linda como quando saíste a primeira vez de casa com as chaves da porta no bolso. E a música que ainda cantas às escondidas com a vida. O YouTube não serve a memória. A boa memória existe quando nos encontrarmos outra vez!

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Liedson da Silva Muniz

Nasceu na Baía um baiano que me provocou nos últimos 7 anos gritos vitoriosos na boca, desajeitado com andar gingão, atleta do meu Sporting que respira GOLO como bebo traçados de vinho com a gasosa das emoções, cesto de nozes, ou mulheres decisivas que também me afectam como ele o coração.
Fez há pouco dois golos, uma argúcia dos predestinados, vi todo o seu último jogo entre torradas e queijo fresco, a mesma frescura com que troca os pés aos defesas à entrada da área.
Despediu-se emocionado do cenário de Alvalade e deixou-me (já começou) um percurso de saudade. Homens como este, destas mesmas alegrias, lembro-me do Damas, do Manuel Fernandes e do Jordão. Pronto, e do Hector Yazalde (Chirola), meu primeiro ídolo a sério nas campanhas do verde-branco.
Foi português de Selecção, fala a língua e a necessidade da portugalidade nos mais capazes. Foi cartazes, «Liedson resolve!». 173 golos.
Quando marcava,
abria a mão em eco de orelha, ouvindo todos,
a festa da bancada,
esse grito da felicidade dos simples.
Estes nomes ficam na memória. Os outros apenas músculo, alguns desenhos no relvado e salários que não ganharemos nunca.
Amanhã todos os jornais e noticiários, se forem sérios, colocarão nas manchetes um nome: LIEDSON. Tudo o resto começará a fazer parte da memória! E não fez mais golos para meu regozijo, porque não tinha jeito para penalties!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Cartão de Natal 2010


Este ano juntamos neve nos pés. Cada um de nós trouxe um relógio velho e um mapa de Poincaré, subtraídos aos impérios do tempo de Peter Galison. Pronto, para que saibas, andamos a medir o nosso tempo e o nosso espaço desde o primeiro momento em que a vida nos fez juntar as mãos e o primeiro sorriso somado à primeira bica-de-água das nossas vidas.
Escolhemos neste ano uma casa no ventre do xisto. Não há riscos sistémicos nem mercados de futuros ou de saudades. Estamos juntos outra vez, a vida nos embale assim. A Helena trouxe um vaso de rosa-albardeira (que para mim são “cucas”, que na Sr.ª. do Círculo eram oferecidas pelos rapazes às namoradas) e deixou-as num vaso grande à soleira do relento, junto à janela de pedra, provocando os rapazes da taberna onde bebemos um café e a bagaceira a encorajar o caminho.
A Mónica trouxe umas fogaças da Feira, castanhas e, às costas, a ver-se da pequena mochila, uma grande ramada de rosmaninho e uma paleta de presunto que sobressaía na pouca luz do andando.
O David trouxe pão fresco, queijo como sempre trouxe, vinho e café. E música, um carrego de 24 giga num ipod sem saber onde o ligar.
Na entrada da casa havia um grande quadro de Matisse, grande nu sentado, em bronze, a convidar-nos a descansar. Havia também lenha para a primeira fogueira. Já está a falar connosco, seca como o tempo. Sentamo-nos à sua alegria. Pendurámos os relógios na cozinha – fica parado outra vez o nosso tempo! Abrimos os mapas no chão da sala – ficam outra vez traçadas as nossas vidas! Vinho, fogaças, castanhas que aquecem as mãos, tiras de presunto com pão e queijo, que mais queremos? A rosa-albardeira a dar bom cheiro, o rosmaninho a crepitar no fogo e um café lá para quando a noite começar a adormecer os braços com medo de perdermos os abraços. Música, esqueçam!!! Então cantemos.
Dizer apenas que já chegámos e que vos esperamos. A casa está aberta, há água quente na panela de ferro, as camas feitas. Tragam o vosso relógio e o vosso mapa. Sem isso, este ano não nos entendemos!
(Alguém bate à porta!)
- Helena, Mónica, quem vai abrir?
-És tu?
Então FELIZ NATAL 2010!
DHM

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Quinta da Bonjóia




Estive lá domingo. Aniversário da I, pequena grande afilhada. Choveu muito na mistura de uma aragem quente. Gostei muito da quinta virada ao Douro. Da casa, amarela, incompleta. Das palmeiras que todas estas quintas tem, no fim dos jardins geométricos.

Mas duas pequenas coisas me fascinaram:

As camélias. No norte, as casas antigas ainda tem camélias. As mesmas do quintal da minha avó. Quase tinha esquecido as camélias…

O silêncio quente e chuvoso que teimava em dizer-me que ali viviam personagens da Agustina. Como se algum dos seus romances pudesse ter ali o seu lugar exacto. Como se aquela quinta pudesse albergar todas as suas personagens. Tão rente ao Douro. A mesma chuva e respirar temporal. Teimosia invernosa esta, de mudar o lugar à obra dessa mulher.

(Será por acaso que na Quinta, propriedade da Câmara do Porto, promove lá serões literários?)

Espanador de Angústia

Às vezes zango-me comigo. Não é frequente, mas acontece. Quando decido ser perversa comigo mesma, me provocar, me desafiar. São duas de uma que se empertigam. Uma cumpre e a outra decide desafiar ao incumprimento. Qualquer desígnio vale nesta espécie de tentação interior. Coisas pequenas, prazeres insuspeitos. (Des)alinho.
Fico zangada com moinha. Chuva pequena. Não é fúria, é só uma esparsa sensação de desapontamento, uma angústia diluída. Líquida.

Agora que o vento e a chuva acalmaram no mundo por instantes, a noite ficou insuspeitamente quente, a estrada sossega negra junto ao mar, logo agora, eu cinzento esta zanga. Era por ela que eu precisava de um espanador…

domingo, novembro 28, 2010

câmara lenta, quase imóvel

apetecia-me deixar aqui o amarelo irreal das folhas das árvores lá fora (árvores que no Outono parecem florescer de folhas caducas que afinal prometem não chegar a cair). mas está frio e eu, de pantufas e preguiça a pesar-me nos bolsos, não consigo chegar a sair. penso todos os dias quando passo por elas: um dia vou-me arrepender de não vos fotografar. um dia vou querer explicar a alguém que as árvores da minha rua no Outono floresciam de uma amarelo fulgurante e frondoso e ninguém vai acreditar. eu própria vou duvidar e concluir que, se fosse verdade, eu as teria fotografado.

apetecia-me deixar aqui esta música do fim dos tempos em que tropecei hoje no iTunes e que ouço em loooop: diamonds and rust. sempre a imaginei a Joan Baez a sofrer este poema pelo Bob Dylan. sempre lhes invejei o amor literário que se liberta, em tom menor, desta canção. um amor trágico e intenso como sempre imaginei os amores dos outros. uma espécie de amor que se vive de ser escrito e invejado por quem sabe, como nós, o que as recordações podem trazer: diamantes e ferrugem.

"now you're telling me you're not nosthalgic
then give me another word for it
you were so good with words
and with keeping things vague
'cause I need some of that vagueness now
it's all coming back too clearly
yes I loved you dearly
and if you're offering me diamonds and rust
I've already paid"

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sábado, novembro 27, 2010

último comboio de sexta...

terça-feira, novembro 23, 2010



Isto é um exercício antigo.
Estender-me na linha por prazer,
o regresso a casa,
abrir as janelas das carruagens a arejar o nosso ar,
apertar na mão um copo do waggon-bar,
acertar o calendário como uma dose de sal num refugado,
recolher à sala grande vendo-vos no espelho da parede por baixo do relógio como fotografia de mulheres de família.
O facebook é sempre provisório como os velhos cigarros dessa marca.
A linha alinha. Lemo-nos aqui menos vezes? Num único parágrafo ainda são as palavras as coordenadas mais decisivas!
Quase não me recordava da password e tenho saudades de colocar música nos carris. Ainda se consegue Mónica, ou o silêncio campeia as paisagens? Tens novas palavras Lena, daquelas que nos agitam o prazer de estarmos vivos?
Voltar a casa é serenar os acordes da vida!
Parece que chego de uma viagem contra o tempo. Pronto, embrulhem lá um sorriso como aquele que deixava cair quando dávamos as mãos para o nada e outros nenhures. E essas pequenas promessas de um outro dia estarmos apenas, a palavra solta, que ainda nos merecem a vida e me agitam, momentos breves, o velho coração?

domingo, novembro 14, 2010

Aguaceiro com luz e farinha como metafísica

Gosto destas manhãs de domingo que antecedem o inverno. Luminosas, com a permissão da alegria que a luz sempre deixa e faz, interceptadas por aguaceiros rápidos e quase invisíveis. Não fora o chão molhado e o cheiro a terra.

Gosto de abrir as janelas e portadas da casa. Gosto de arejar a casa e a vida familiar que nela acorda sonolenta. Deixar a luz e o ar entrar, espalhar-se pelos livros, confundir-se com o espaço, fazer-se ao chão, desenhar a luz dos que nela vivem. Gosto destas manhãs de domingo que cheiram a luz fria.

As manhãs de domingo são ainda feitas de um tempo espesso, que escorrega devagar, que se infiltra com parcimónia nos gestos, que nos acorda muito depois do café e do cigarro. É um tempo mel sem tanto doce.

Nalgumas manhãs de domingo, depois de sono grande, a ordem parece-me perfeita. Tudo está no sítio certo, desde a luz fria ao ladrar dos cães ao longe ou mesmo, às vezes, o cheiro da maresia. Em tão poucos momentos, a vida me parece capaz da perfeição. Acontece antes do inverno e igualmente antes da primavera. Por causa da luz e do ar.

Quando acontece as manhãs de domingo exalarem essa ordem perfeita, não me apetece metafísica alguma. Nada, nada é tão grande quanto esse vagar. Hoje, sem vontade de metafísica depois de aberta a janela ao acordar, apeteceu-me fazer bolos. Trocar causas por farinha. Fiz dois, grandes e bonitos, que pousei perto da janela da cozinha. Pela tardinha, quando a luz se esfumar e o frio se instalar no espaço da casa, quando a dolência que os fins de tarde de domingo também tem, sei que será a hora de ferver a água, deixar assentar as folhas de chá, por a toalha, chamar os nossos e sentar na mesa a comer uma fatia de cada um desses bolos que, esta manhã, foram a única metafísica desejada.

sábado, outubro 30, 2010

mais uma campanha do medo


Hoje no Público, ontem na televisão (no programa "Sociedade Civil").

estudos recentes demonstram que a redução da moratlidade do cancro da mama se deve sobretudo aos progressos no diagnóstico precoce (rápida avaliação e orientação de sintomas da mama) e no tratamento, sendo apenas uma pequena parte atribuível ao rastreio de mulheres saudáveis. é exemplo o estudo norueguês publicado recentemente no New England Journal of Medicine (N Engl J Med. 2010 Sep 23;363(13):1203-10)

acresce a esta dúvida sobre o real benefício dos rastreios do cancro da mama, um grande silêncio sobre os danos que ele provoca: as biópsias e as mastectomias que ele provoca, sabendo-se hoje que alguns cancros localizados nunca seriam sintomáticos (não se sabe é quais, o que "obriga" ao tratamento de todos os que se encontram no rastreio).

portanto não são líquidas estas afirmações que se enquadram numa estratégia de marketing da doença (por vezes usando a boa fé de médicos menos atentos) e da prática de uma Medicina baseada no medo. visitas médicas de 6 em 6 meses para mulheres saudáveis a partir dos 35 anos? que mais irão inventar?

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