Ávila

Sempre que passei por Ávila tive o desejo de ficar uma noite. Não sei quantas, sei que ainda era imortal e sempre passei nobre pela boca da muralha, sentindo pedra e sombra, gente forte com o ADN de quem no tempo antigo a protegeu na cumplicidade do rio Adaja, afluente do nosso Douro que é muito deles e passei, passei.
Vindo de Madrid, pelas novas estradas de Espanha, decidi ficar. Já guardo dinheiro suficiente para esse prazer. Deixei deitar o corpo à oferta do
Palácio Valderrábanos, ali à Catedral e vivi essa Ávila por dentro.
O clérigo don Alonso, vindo de Palencia, deu-se a bispo e criou o seu bispado. Reuniu los ermitaños del Cerro de Guisando e construiu um Mosteiro. Depois de muita história e de outras tantas estórias, ficou um Grand Hotel. Aqui passei uma noite e desfrutei a vida dentro da muralha. Tinha dinheiro para mais, mas Ávila ficar-me-á para sempre com a memória de um fim de tarde junto ao rio, uma noite longa dos seus sabores e uma manhã de passagem como quem passa ágil por portagem.
Prazeres no corredor
Em casa somos dois os compradores compulsivos de livros. Temos hábitos distintos de deixar os livros na casa, mas de vez enquanto ele agarra neles todos e arruma na estante, ainda vaga, do corredor. Temos uma prateleira dos que ainda estão por ler. Um lugar fácil, uma prateleira de reserva sempre à mão.
Ontem, de passagem pelo corredor, depois de fechar as janelas dos quartos ao frio do fim de tarde, espreitei-a sem intenção e eis que um livro me chamou. Não sei se o preto e branco da capa ou o nome Adolfo Bioy Casares. Chamou e nas mão se me tornou irresistível. “O herói das mulheres” veio comigo, pouso na mesa em frente à janela grande e aqui está a fazer a leitura de algumas destas muitas horas que os dias me tem.
Gosto de ser surpreendida, dentro de casa, por fascínios destes que não fui eu que trouxe.
recado sem importância...
Estou desde quinta à tarde, com toda a legitimidade do mundo e da classe médica, agarrada à cama, com a mesinha de cabeceira cheia de livros e jornais e com a hipótese sagrada do descanso. Leio capítulos de livros e dormito entre eles, o corpo na cama do cansaço que à tanto reclamava, não faço nada como um dever e apenas hoje me aventurei aqui, à porta do lado do quarto que tem sido a casa toda. Como se fosse A, mas sem teste de confirmação dado que não sou de risco. Reclusão de sete dias inteiramente legitimada. Sagrado Novembro com interrupção.
Saíram todos para a serra de Sintra. Vim espreitar os blogues, fumar um cigarro (sintoma de melhoras, sem dúvida…), encomendar o livro da Isabela antes que outros mo roubem…estou contente com esta reserva de tempo todo que me deram.
Está um dia pardo para além das cortinas do quarto. Outono é mesmo esta pequena infiltração de cinzentos.
O «PERNA»
Foto Facebook JVUma das últimas catedrais da comida familiar. O Perna ganhou nome porque uma das suas pernas é amovível para todos os pontos cardeais, tendo como bússola um joelho manhoso. Não é manhoso, não é cardeal, é o papa. Faz papas com almeirões e couve cortadinha no azeite com dente de alho para dentes mais delicados. Trabalha o peixe e as carnes no carvão como nas antigas forjas se batia o ferro ardente para as ferraduras, hoje dentaduras delicadas.
A função começa ao balcão de mármore. Taças de branco – hoje inaugurámos um garrafão cheio!
Se vem visitante novo, a D. Maria faz o número de sempre: enche os copos para quem está (um a mais para o Perna), ergue um a dar de beber ao viajante, estica o braço para o serviço e, quando o novato se prepara para o adoçar nos lábios, ela recua no movimento e bebe-o de um trago. Acho que depois diz «Bem-vindo!» entre um fosca-se a baixar silêncios.
Depois a mesa farta. A capital da entremeada, para mim a melhor batata frita do Sicó cortada a máquina alemã.
Chegam-se às mesas quando a clientela está servida. Um copo ali, outro copo aqui, uma anedota e, hoje, direito a fotografia.
- Tira lá isso pá, olha aqui dois bêbados! – disse a D. Maria de jarro na mão, partilhando com o Perna um altar onde cozinham amores sofridos de anos a fio.
Estão, sem o saber, a partir de hoje no Faceboock.
Quando chega à mesa o café e a Frise (aguardente camuflada à ASAE), tudo fica no ponto. Eles felizes por nos terem à mesa, nós felizes por sermos família.
Ir ao Perna passou a ser uma peregrinação. E tem outra vantagem:
- é mais perto do que peregrinar a Fátima, tem uma Maria que pouco tem de Virgem e só na saída é que é possível andar de joelhos sem choros nem velas. Outro joelhódromo para cumprir nas vivências do Sicó.
Sabores

Para que os guardes,
todos os diamantes que fazem uma romã,
aberta neste estranho tempo de um raro calor de Outono
como quem contraria beijos fora de época.
no Público, hoje
(clicar na imagem para aumentar)Laura Ferreira dos Santos já escreveu
quase tudo sobre que vida interessa preservar na morte. mas há muita gente que ainda não leu e é preciso continuar a escrevê-lo. para todos nós que um dia também perderemos a vida. para quase todos nós que um dia seremos "a família" dos que morrem. para aqueles de nós que trabalham segurando na mão a morte dos que já mal vivem.
Etiquetas: Laura Ferreira dos Santos, morte
Gripe, há?

Nunca tive especial afecto por pontas de seringas. Um camionista de longo curso meu amigo poderia ter sido o eleito para transportar as célebres vacinas da Bélgica para aqui. Estampou-se, tinha camião de frio, frio ficou ele de susto.
Não tendo sido ele o eleito para lidar com a bicharada, escolheram os eleitos (ditoso povo da reserva da Nação!) para dar saída à reserva nacional da vacinação.
Quem tem cú tem tido medo! Todos fogem com o cú à seringa do SNS da democracia eleita a voto do povo.
Povo sou eu e a ele pertenço como disse um fado. Povo sou eu, lavo as mãos, empurro as portas públicas com os cotovelos, tusso para os pés e deixei teimosamente de coçar o nariz.
Enquanto não vir a seringa em horário nobre a entrar na nádega do Cavaco, do Sócrates e da Ana Jorge vou aguentando por aqui, mantendo o cú nas calças, entre as pernas.
Na doença, como ouvi hoje dizer, parece que temos pela primeira vez solução a mais. Ninguém quer dar o cú ao caso, ao acaso.
Mas a aplicada ao director-geral da Saúde, Francisco George fez todo o sentido. Com aquele aspecto, todo ele é uma pandemia!
- E ó Mónica, ó Cabrita, tussam-me uma garantia, a gripe, há?
Coimbra-B

se ainda me bate forte o coração quando passo por Coimbra-B? mas claro, com tanta, tanta, força que me invade a agonia desesperada do fim das coisas todas que lá conheci. o fim que começava com a voz do chefe de estação "vai dar entrada na linha número dois o comboio inter-regional com destino a Porto-Campanhã" e avançava depois com o assomar da automotora - trágica e inexorável - na curva ao fundo da linha, numa marcha lentíssima que sabíamos ia acabar com tudo o que tínhamos quando nos descobríssemos dentro do comboio sós, desasados e sem nos conseguirmos lembrar como é que se vivia, como é que se respirava.
Coimbra-B está renovada, modernaça, limpa e colorida e, no entanto, não passo por lá sem que me surjam através da janela memórias a preto e branco das nossas mochilas no chão, sem ouvir violas e vozes ameaçando que todos os dias "são dias que passam" e sem sentir os olhos exaustos de tanto chorar.
deixamos lá, dissolvidos na argamassa e na atmosfera da tua estação, demasiada terra, demasiado sal, um cancioneiro inteiro, saudades gigantescas uns dos outros, todo o nosso medo de viver. não duvides disso David, nunca mais.
Etiquetas: comboios, os campos
em directo da linha do norte
fiz-me à linha do norte,
outra vez. entrei ontem em Campanhã e há vinte minutos voltei a embarcar em Stª Apolónia (pelas mãos da Helena, claro). prometo que para a próxima, em vez do enjoativo alfa pendular (que me deixa completamente nauseada e KO), apanho um sólido intercidades e escrevo aqui do comboio um post inteirinho, sobre esta viagem mítica.
uma história, certamente
A casa dorme um sono infantil ao fundo do corredor. O mundo está calado num amanhecer claro e fresco. Eu sento-me na quietude fronteira à caneca de café e ao cigarro nos dedos. Os livros das estantes humedeceram as palavras. Estou num só ângulo de acordar.
Não tarda e um comboio chega a acabar no sul, trazendo o nevoeiro que o granito do norte guardou para nós. Outra dimensão terá o dia.
Mas é a quietude que sinto e é essa que compõem estas palavras desalinhadas. Se durasse um pouco mais de tempo o sono da casa e do mundo, o que farias?
Uma história.
Uma história para caber nela esta mesma história de amor, este mesmo respirar, esta mesma incompleta forma de vida, este mesmo tudo que, às vezes, a falta de quietude não deixa percepcionar.
Uma história igualzinha à vida.
Para a Mónica

Agora sim,
somada a tua idade pedra a pedra,
e ligadas entre si pela tua insistente disponibilidade,
começa-me a ser visível nesta vivência de anos
a construção de um bonito castelo.
Pedra e água. Com estas idades, que mais faremos?