não há festa sem música. não há memória sem música. não há tempo não há história não há quase nada em mim sem uma música por dentro, sem música em volta, sem ela. essa língua franca.
«Meu nome é Ana e sou viciada em música É ela quem me chama quando eu já não estou lúcida Quando o mundo desaba e o coração se quebra É ela que o cola e sara, ela é que me devolve à Terra»
a queima do Porto começa hoje à noite. é incrível como tantos anos depois - ao senti-la no ar por morar bem no meio da movida estudantil universitária - ainda revivo sempre o frémito que esta semana de festa nonstop sempre me trouxe.
eu na serenata da minha penúltima queima, em 1991 (sim, a pasta com as fitas ainda não era a minha). nessa época já mal cabíamos no terreiro da Sé e a comoção das guitarras e vozes do fado era interrompida pelo medo de morrer esmagada naquela multidão. lembro essa comoção e esse medo misturados com a sensação meio louca de que tudo podia acontecer nos dias que viriam. a euforia dessa liberdade imensa e perigosa que é esticar os nossos limites.
lembro isso hoje, uma vez mais, mas desta vez com uma sobressalto extra. começa hoje a primeira queima do meu filho F.
o David fez anos ontem e eu só hoje cheguei aqui. espero que o dia dele tenha sido tão pleno que o tempo não tenha chegado para passar na linha e perceber que não o assinalámos. tão cheio de amigos - presentes ou distantes, recentes ou antigos - a chegarem, a horas, por todas as vias possíveis e imagináveis, que, de certo modo, lhe saiba ainda bem só hoje tropeçar nesta amizade paralela e sem tempo, nesta lembrança inscrita numa memória alternativa à do dia-a-dia.
onde temos estado? por onde escrevemos? por que nervos sentimos estes dias?
só para dizer que estou cá neste dia, o dia da Helena. e também do Joaquim. presente. e deixo presente: uma musiquinha mais de hoje para que comemorar os nossos "entas" possa ser ainda dançar o presente. e sonhar o futuro.
acordei a escrever na cabeça que ser mãe eram coisas extraordinárias como "aprender a levantar pedras para resgatar flores esmagadas", ou "sacudir a terra com jeito para revelar as raízes". mas depois começou um daqueles dias em que ser mãe é apenas ser mulher e carregar o fado de levantar o mundo adiante. e, queira ou não, transmitir isso aos meus filhos.
venho de um fim-de-semana de festas de anos, esses eventos onde, basicamente, mães se empenham em rodear os filhos de balões, bicos de pato, sumos e guloseimas várias, conversando entre si no intervalo de duas bandejas ou de 2 beijos de sarar feridas. mães que chegam e trazem filhos, mães que vão levando-os depois, mães algumas que ficam e contam a sua história (mães que julgávamos conhecer até nos contarem a sua história), mães de mães, que nos sabem explicar o mundo, e saram mais uma ferida e levam mais uma bandeja. mães felizes e orgulhosas. comovidas. exangues. frágeis. invencíveis.
e alguns pais, claro. poucos. e exaustos no final da festa.
acabo de descobrir que fazemos por estes dias 2 anos de blog. a linha do norte começou a ser sonhada no Verão de 2005 e, depois de várias tentativas de nos sentarmos os 3 a beber um copo sobre o assunto, a 19 de Janeiro de 2006, exasperados e sem que nos conseguíssemos encontrar, o David punha o primeiro post (como só a 23 arranjámos um sitemeter é por essa data que nos costumam felicitar). desde esse dia, já distribuímos mais de 23000 bilhetes, um número virtual de passageiros que dá peso às nossas composições. e calor. e velocidade.
eu gostava de saber escrever para o meu amigo David (que hoje faz anos em capicua) um post tirado da cartola: palavras como fitas coloridas jorrando-me das mangas, lenços de seda esvoaçando, fotografias disparando como pombas brancas, ideias irrequietas como coelhos. se eu soubesse, escrevia-lhe esse post e grãos de areia do deserto viriam sob os seus pés, sobre a sua cabeça todas as constelações do hemisfério sul. eu queria escrever mas só me ocorrem truques de magia: ele trazido um dia pela mão de um mestre com olhos azuis de anjo travesso (eu por amizades abençoadas e insuspeitas e milagreiras). um nada esse primeiro truque que nos juntou, comparado com os passes seguintes que não nos deixaram perder (canções, caminhadas, copos, poemas. e cartas, muitas cartas. para cá e para lá, indo e vindo, como nós, pelo comboio da linha do norte). eu gostava de escrever, mas só me sai o que já está escrito na tinta secreta e sempre letal com que se escrevem a memória, o tempo e o futuro: a nossa improvável, etérea e infinita história.
cada vez mais os desejos para o ano novo são que transitem do ano velho os tesouros acumulados: saúde, paz, amor, pão, trabalho. para os nossos primeiro, para o mundo logo a seguir. desejos mínimos. desejos que não se poderão cumprir para sempre mas que no minuto zero do ano suplicamos persistam ainda por este tempo novo que se nos abre pela frente.
Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.
Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.
Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.
Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.
Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.
7 anos de gente. 7 anos da nossa alegria (7 anos desde o primeiro sorriso prazenteiro). 7 anos de beijos, de olhar fundo nos nossos olhos. de aventura, de conhecimento. 7 anos de vida. uma vida.
"Esta é só uma noite para partilhar Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro Um lugar a salvo para onde correr Quando nada bate certo E se fica a céu aberto Sem saber o que fazer
Esta é uma noite para comemorar Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo Um lugar para nós onde demorar Quando nada faz sentido E se fica mais perdido E se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar Do que a vida foi fazendo sem nos avisar Foi-se acumulando em fotografias Em distâncias e saudades Numa dor que nunca acaba E faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar Que há qualquer coisa infinita como o firmamento Um sorriso um abraço que transcende o tempo E ter medo como dantes E acordar a meio da noite A precisar de um regaço"
foi há dez anos e até custaria acreditar se não fossem as fotografias, povoadas de pessoas desaparecidas, a prová-lo. fotografias cheias de gente que então existia e preenchia a nossa vida e que desapareceu: mortes, separações ou simples mudanças de mundo.
custaria a acreditar, ou não fossem as outras pessoas que entretanto nasceceram na nossa vida: duas crianças que nos crescem em casa sem qualquer espécie de controlo.
foi há dez anos mas, fora isso, parece que foi ontem mesmo.
tenho um filho que anda há 6 anos numa escola pública e, talvez por isso, foi habituado a ser convidado apenas para algumas festas, poucas (embora às vezes também em estilo de armazém). é um rapaz que sempre preferiu um tête-a-tête a grandes grupos, uma boa brincadeira aos polícias ou aos professores a grandes correrias e euforias. ainda ontem festejamos os seus 9 anos nos jardins do Palácio de Cristal: uma festa bonita, cheia de sol e de 11 dos amigos que mais significam para ele. crianças que venho conhecendo e me conhecem e pousam a cabeça no meu ombro quando precisam. acabou num fantástico jogo de futebol entre as crianças, 2 dos pais e o avô (meu pai).
foi a outra filha de 6 anos que, ingressada há 1 ano no ensino privado, nos proporcionou a experiência do armazém e nos confrontou com a insanidade do preço de uma aventura destas: uma média de 10 euros por cabeça a multiplicar por 28 colegas + alguns primos e amigos = quase um salário mínimo. e a primeira festa dela pós-colégio continuou a ser em casa, depois da selecção difícil de 8 colegas a convidar. no entanto, à chegada, dir-se-ia que alguns julgavam estar num armazém: entravam a correr de olhos esgazeados, sem uma saudação, um olhar nos meus olhos ou nos da aniversariante. são crianças que ainda hoje, se encontro à porta do colégio, não me reconhecem.
imagino que nem todas as festas-armazém seja terríveis como as que experimentei mas estimularei enquanto puder as festas - e tudo na vida - que priviligiem o olhar nos olhos, a escolha e o ser escolhido, as relações intensas, enfim, a aprendizagem da amizade, esse laço vital.
este ano descobri (bem tarde, bem bom, eu sei) outro tipo de festas: turmas de escola inteiras convidadas a eito para 2,5 horas, religiosamente contadas, de correrias dentro de um armazém cheio de insufláveis e entretenimentos vários, com um lanche servido ao toque da sirene, sejam 10 da manhã ou 6 da tarde, pizza, gelado e bolo de anos, entre hordas de aniversariantes e convidados de outras festas. à entrada, balcões de check-in registam, de modo profissional, os nomes dos convidados que chegam, as prendas são atiradas directamente para um saco gigante ficando-se sem saber ao certo quando chegarão às mãos do festejado e, no fim, todos têm direito a um saco de guloseimas ou um brinde qualquer.
é frequente à chegada já não vislumbrarmos o aniversariante, que não resistiu à espera e desapareceu no barco dos piratas ou na nave espacial com participantes de outras festas. os pais muitas vezes não conhecem os nossos filhos, colegas dos seus, muito menos nos conhecem a nós e nós a eles. no meio do barulho e demais confusão que reina nesses espaços, tentamos por vezes que tudo se assemelhe a uma chegada a uma festa, e não a uma entrega de um embrulho: "é a mãe do Pedrinho? eu sou a mãe da Paulinha. então é às 5 horas que acaba, não é?", mas é quase sempre muito difícil. no fim vêm suados e felizes mas sem histórias para contar.
quando eu andava na escola primária, as festas de anos eram feitas em casa. convidava uma mão cheia de amigas (porque a minha primária, embora interrompida a meio pelo 25 Abril, foi sempre numa turma só de meninas) que no dia aprazado chegavam com as suas prendas (livros da Anita, dominós e caixas de costura) para uma tarde inteira de uma brincadeira que se tornava mais divertida à medida que se aproximava a hora do fim da festa. caçadinhas, escondidinhas, cowboyadas e quarto-escuro, com a participação desenjoativa dos meus irmãos e de 1 ou 2 vizinhos rapazes, eram um must. para o lanche havia invariavelmente sumos Alsa, bicos de pato com salsicha ou fiambre e um bolo feito pela mãe, com as velas necessárias. convidava um núcleo de amigas consistente ao longo dos anos, acrescido de algumas que futuavam ano após ano, ao sabor de diferentes circunstâncias e simpatias.
o reverso também se verificava: era convidada ano após ano para a festa de meia dúzia de amigas (algumas das quais esperava ansiosamente) e, esporadicamente, para festas de primeira vez. lembro-me de frequentar vários tipos de casas (umas mais abastadas, outras mais próximas da minha, outras ainda visivelmente mais pobres), de acordo com a heterogeneidade de uma escola pública de um lugarejo junto ao mar e a uma grande cidade. em cada casa, em cada festa, um fascínio diferente: os brinquedos de uma, o quintal imenso de outra, ainda a escadaria de outra, e, inesquecível, o muro baixo de uma, a dar para um pinhal de areia, rente às dunas para onde nos escapávamos a seguir ao lanche.
depois de uma espécie de quarentena que os excessos deste tipo de manifestações a certa altura me provocaram, começa a renascer-me, aos poucos, um novo carinho por esta euforia de manjericos, alhos porros, cascatas e sardinhas assadas. um carinho que me apetece ensinar aos meus filhos, esperando que um dia retomem o ciclo e se sirvam destes festejos como um ritual de iniciação à liberdade.
Sou tão enthusiasta pelos caminhos de ferro, que, se fosse possível, obrigava todo o paíz a viajar de comboio durante 6 meses (Fontes Pereira de Mello)