queima
a queima do Porto começa hoje à noite. é incrível como tantos anos depois - ao senti-la no ar por morar bem no meio da movida estudantil universitária - ainda revivo sempre o frémito que esta semana de festa nonstop sempre me trouxe.
eu na serenata da minha penúltima queima, em 1991 (sim, a pasta com as fitas ainda não era a minha). nessa época já mal cabíamos no terreiro da Sé e a comoção das guitarras e vozes do fado era interrompida pelo medo de morrer esmagada naquela multidão. lembro essa comoção e esse medo misturados com a sensação meio louca de que tudo podia acontecer nos dias que viriam. a euforia dessa liberdade imensa e perigosa que é esticar os nossos limites.
lembro isso hoje, uma vez mais, mas desta vez com uma sobressalto extra. começa hoje a primeira queima do meu filho F.
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ofício de cuidar

"Tens uns pés mesmo cansados" disse a minha filha I. enquanto me calçava as havaianas que lhe pedi quando ontem à noite cheguei a casa. eu não tinha dito nada, embora sentisse, não os pés, mas todo o meu ser espalmado e batido. não sei se terá sido o tom da minha voz, se mesmo o aspecto dos meus pés, a denunciar esse cansaço. mas fiquei abismada como a I., nos seus 8 anos tão alegres como despreocupados, percebeu tudo e, numa frase, me tirou meia tonelada de cima.
tenho às vezes a impressão que o futuro desta filha passará (ou poderia passar) por uma profissão de cuidar. como a minha. mas com 8 anos eu ainda não cuidava assim.
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os nossos dias
acordei a escrever na cabeça que ser mãe eram coisas extraordinárias como "aprender a levantar pedras para resgatar flores esmagadas", ou "sacudir a terra com jeito para revelar as raízes". mas depois começou um daqueles dias em que ser mãe é apenas ser mulher e carregar o fado de levantar o mundo adiante. e, queira ou não, transmitir isso aos meus filhos.
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saudades de brincar
no regresso das férias a conversa habitual: já tinha saudades disto, e eu daquilo, e tu? o F, de 10 anos, tinha saudades do quarto. a I, de 8, dos seus bebés. e eu a dizer que achava que não tinha saudades de nada, tão bem que estava ainda ao fim de 15 dias de ferinhas ferinhas mesmo. mas depois disse: "só, talvez, um bocadinho, do meu computador". e a I achou normal: "pois, os grandes não têm brinquedos".
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dúvida
dúvida da minha filha, a um mês de completar 8 anos, de mãos em concha no meu ouvido, durante a homilia do Pe. Nuno (que se ri muito, e tem às vezes um riso maroto):
- "Mãe, os padres também têm pecados?"
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dores de crescimento

ainda vai fazer oito anos, faltam-lhe os dentes da frente, mas já anda às voltas com o corpo que tem: "não me sinto bem de saias", ou "como é que se tiram os pêlos?". começo a sofrer por ela mais que o que sofri comigo própria. é que eu só comecei aos 12 ou 13 anos (uma aflição com os pêlos, com o tamanho do rabo, a forma de tudo, um desassossego de que só recuperei lá para os 18), e lembro-me bem de ter, então, em plena aflição, saudades do bonita que me sentia quando era criança, da segurança que trazia no corpo antes dele crescer. mas esta minha filha, quando é que sentiu bem com o seu corpo se aos 7 já sofre assim? terá direito, como eu tive, ao seu país de cristal?
há dias ao deitar, a carita triste enquanto rezávamos, e uma pergunta mal acabamos: "ó mã-ãe, como é que as senhoras fazem para os bigodes não lhes crescerem muito?". eu a explicar que usavam, entre outras coisas, cera e ela, escandalizada: "dos ouvidos?", não, não, e rio-me muito sem lhe conseguir explicar a tempo doutra pergunta: "então, das velas?"
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o dia do Colégio

amanhã é o dia do Colégio. andam há mais de uma semana em contagem decrescente (a mais pequena nas últimas manhãs pergunta sempre "já é hoje?"). ao fim da tarde começaram a pegar-se, aos risinhos nervosos e brincadeiras parvinhas que habitualmente lhes nascem antes de um grande evento. aquilo a que chamamos (nós, adultos) uma imensa excitação, cheios mas é de inveja de já nada nos excitar assim.
o dia do Colégio é festejado todos os anos. um programa simples mas sábio: jogos e brincadeiras variáveis que num dia misturam nas mesmas equipas ou ateliers alunos de todo os anos (da sala dos 3 anos até ao 12º) e professores das mais variadas disciplinas. andam nisto, almoçam como de costume e à tarde há um bolo gigante para todos e no fim uma largada de balões (este ano de látex biodegradável) com as cores do colégio.
desde a primeira vez que vêm felizes: pelos colegas mais velhos que contactam e que dali em diante reconhecem e cumprimentam nos recreios; pelos jogos mirabolantes; pelo bolo tão grande; pelo dia inteirinho de folia. desde a primeira vez que foi nítida a diferença em relação à anterior escola e percebi como se ali se constrói comunidade, se tecem e se alimentam laços. por isso é legítimo o que apregoam: "colégio com alma".
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crescer a caminho da escola
o meu filho, de 10 anos, ao fim de 3 semanas no 5º ano, declarou que queria começar a vir sozinho da escola para casa. há já mais de 1 ano que lhe dizíamos que um dia o faria, quando se sentisse preparado.
guardo comigo, nestes primeiros dias, uma réstea de ansiedade: não só pela natureza humana potencialmente hostil que existe lá fora, mas, mais ainda, pelo trânsito enlouquecido que é o da zona (a escola fica na nossa rua, a cerca de 500 metros de casa, por passeios estreitos e com uma conjugação de semáforos que privilegia os aceleras).
começou por querer vir à hora de almoço, altura em que pode fazer boa parte do caminho com alguns colegas. protegido pelo seu (tão invocado) anjo-da-guarda, logo teve que quebrar a regra "e não dás conversa a ninguém" ao encontrar, primeiro, uma tia e, depois, uma educadora dos seus anos de infantário. ontem quis vir também à tarde. espreitei a sua chegada, ansiosa, à varanda e pude ver como, ao esperar na passadeira, se encontrou com a única vizinha com quem temos relações sólidas. hoje de manhã, face a uma ameaça de atraso da irmã, despediu-se com um "vou indo".
ando feliz porque eu trazia, antes destas, uma ansiedade maior: a de que este filho, hiperatento e profundamente sensível aos climas emocionais e comportamentais, não fosse capaz de dar este salto, não quisesse arriscar esta autonomia.
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o retrato

este é o retrato que a minha filha, de 7 anos, fez da minha mãe. a família ficou boquiaberta com o novo talento aqui revelado. é que, quem conhece a avó Bi, reencontra neste desenho, inteirinhas, a sua vivacidade e alegria de existir. e um certo olhar que eu diria mesmo ainda mais garoto que o da pópria neta, como só uma avó que ama por ofício pode ter.
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lockdown

também colaborei num
lockdown quando retirei o meu filho das garras de uma professora inverosímel, de tão refinadamente cruel: crianças diariamente insultadas ("
a mesa dos lesmas"), outras batidas em frente de toda a turma se iam ao quadro e não resolviam um problema, humilhadas em seguida ("
porque é que está a chorar? alguém lhe fez algum mal?"), outras ainda torturadas (não poder ir ao quarto-de-banho até ser tarde demais), maltratadas (pedir a uma criança adoptada que saiba de cor o hospital onde nasceu e o nome dos avós), entregues a si próprias ("
eu só explico uma vez e avanço com os bons alunos"), apavoradas.
tentei primeiro desfazer o lockdown. durante ano e meio falei na escola, depois no agrupamento, depois na Inspecção Geral de Educação, depois na DREN. nada resultou. a estrutura manteve-se inabalável e a funcionar nesse isolamento através do qual não é possível
"entrever a profunda distorção e quase ignomínia do que se passa", de que falava o leitor do Abrupto.
mudei o meu filho de escola. resultou para ele, mas o sistema manteve-se em lockdown. ainda há pouco lhe telefonou um coleguinha dessa turma. o menino queria saber se na próxima 6ª a prova de aferição (nacional, a que vão ser sujeitos todos os alunos do 4º ano) ia ser de Matemática ou de Língua Portuguesa. "é que nós perguntamos à professora mas ela respondeu: «Isso é que era bom! Estudem tudo e 6ª verão»."
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cada um
depois tenho um filho, de 9 anos, tão mas tão pouco vaidoso que (porque as velhas já lhe apertam) prefere que eu lhe compre umas sapatilhas à minha escolha, do que ir comigo à sapataria: "eu não dou muita importância a isso, desde que sejam nº 36", desculpa-se. é além disso um obreiro, o rapaz, um fazedor tão compulsivo que, além de nos arumar e limpar a casa toda em certos dias de tédio, se o deixássemos, instaurava nela toda uma nova ordem organizacional. podia ficar a noite toda a contar por que motivos às vezes não resisto a pensar, embevecida, que está criado este filho, construído, que pouco mais podemos interferir, que irá sempre onde, e só onde, ele quiser. e depois do embevecimento, resta-me com ele também a esperança. de que a vida seja tão simples como isso.
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cada um
tenho uma filha de 7 anos tão, mas tão, vaidosa que, além de passar horas a cuidar de si ao espelho, até de mim tem vaidade (pediu-me há tempos para me mostrar às suas colegas e agora, já a pensar na festa do dia da mãe na escola, anda a planear a minha vestimenta e penteado). é também fútil, tão fútil que quando for grande quer ser algo entre famosa, actriz, bailarina e dona de uma confeitaria, para poder comer chiclets sem pagar. e assim, qualidades que podiam roçar o defeito tornam-se amor derretido, risos abertos e comoção. e esperança, de que a vida dela possa ser, a par disso, ainda uma vida plena, feliz e transbordante.
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benvindo ao futuro

ontem, em conversa à mesa de jantar, a I, de 7 anos:
-
Eu já tive a varicela?! E em que computador é que apanhei o vírus?Etiquetas: filhos
desfazer as malas



a Helena chega-lhes (às crianças) sempre carregada de prendas, a mais das vezes livros, invariavelmente acertadíssimos. as imagens acima, que dispensam obviamente mais palavras respeitam a "Irmãos e Separáveis", uma BD (de Rick Kirkman e Jerry Scott, muito badalados por esta série genericamente intitulada por Baby Blues) que põe pais e filhos a rir de tudo o que parece insuportável no dia-a-dia de uma família com filhos pequenos.
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velhos, velhos, velhos

vêm, pontuais, com o Inverno
quando já nos tínhamos esquecido como era
os champôs, os pentes finos, o cheiro a creolina ("quem não tem?")
são os piolhos, as lêndeas, as comichões
velhos, velhos, velhos
vêm com o Inverno
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outra espécie de apelo
quem me recomenda um livro comme il faut tipo educação sexual para crianças?
tenho um rapaz de 9 anos que não faz perguntas dessa área (e assim me deixou até hoje sem pensar no assunto) e uma rapariga de 7 que é capaz de perguntar tudo mas que ainda não se lembrou de o fazer. no entanto, descobri há dias que ela julgava que a diferença entre uma égua e um cavalo podia ser uma mancha mais clara no focinho de um deles. quando tentei explicar o que distinguia um macho de uma fêmea com exemplos do pessoal cá de casa, percebi que também aí ela estava a leste. foi então que, à falta de exemplares masculinos dispostos a servir de modelos, me quis virar para os livros mas descobri que não tinha nenhum. aproveitei o pretexto para ir conhecer
a mais nova livraria cá do burgo, mas não fui bem sucedida: os livros que lá encontrei oscilavam entre o demasiado sisudo e a galhofa despropositada.
mães, pais, professores da blogosfera, alguém me ajuda?
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7 anos

7 anos de gente. 7 anos da nossa alegria (7 anos desde o primeiro sorriso prazenteiro). 7 anos de beijos, de olhar fundo nos nossos olhos. de aventura, de conhecimento. 7 anos de vida. uma vida.
parabéns meu amor.
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a arte
há dias os meus filhos foram a Serralves, com a escola, participar numas oficinas. mas chegaram a casa a falar de arte: tinham visto umas coisas de um artista muito importante, uma banheira sem buraco com um garrafão dentro, "porque antigamente as banheiras não tinham buraco e tinham de se esvaziar assim", explicaram. tentei perceber melhor o que tinham andado a ver, seria pintura? escultura? que não: "era arte", de "um grande artista, pela primeira vez em Portugal", apregoavam. havia também uns caixotes. e a banheira, descreviam-me outra vez a banheira.
calhou no domingo voltarmos Serralves e enquanto esperávamos lugar no restaurante, lá fomos visitar a
exposição: a banheira recebia-nos imponente à entrada. era engraçada, de facto, com um fundo de água e um garrafão de vidro a boiar, preso a um molho de palha uns metros mais acima. mas o que se lhe seguiu, disperso por uma boa meia dúzia de salas e alguns corredores do museu, foi de me abismar: caixotes de cartão, uns bocados de corda, uma outra pedra, um ou outro pneu, algum ferro velho e vários panos de diferentes cores cozidos.

coisas. e algum lixo. nem bonito, nem raro, nem difícil, nem revelador. coisas. lixo. arte contemporânea? alguém me ajuda a compreender?
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acordo ortográfico
I, 6 anos:
- nono, décimo, ônzimo, dôzimo, trêzimo (...)
(há dias ouvi na TV um linguista defender que o português se devia ir actualizando no sentido de se tornar mais simples e mais facilmente apreendido por estrangeiros. se é isso que se pretende, então eu sugiro: falem com as crianças)
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ainda o público vs privado
pois
dá trabalho. ter os filhos numa escola pública pode dar imenso trabalho: um trabalho hercúleo, raiando a escravatura, que se estende a todos os membros da família (incluindo trabalho infantil) e que, como cá em casa, não é garante de resultados positivos.
andei uns anos nesse trabalho, cheia de certezas e de opiniões sobre quem optava pela demissão e se rendia à facilidade do privado. depois, um dia, percebi que, na minha cruzada privada pelo ensino público (que levava anos e não conhecia ainda esperança de fim), não tinha o direito de privar os meus filhos do seu curto presente. percebi isso e mudei, é preciso saber desistir a tempo de viver.
agora temos na mesma trabalho: o trabalho de ser feliz, de crescer todos os dias, de ter um projecto, de cuidar, em conjunto com quem de nós cuida, de recompensar e ser recompensado. agora os meus filhos andam num "colégio com alma". e ter uma alma também dá muito trabalho, outro trabalho.
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