sábado, dezembro 19, 2009

os carros também se abatem


antigamente, os carros morriam como as pessoas. alguns, prematuramente, em acidentes violentos. outros, a maioria, morriam devagar. iam acumulando ruídos, dificuldades, começavam a ir mais vezes ao mecânico, gastavam cada vez mais óleo, pediam-nos redobrados e paliativos cuidados e, um dia, não acordavam da sua imobilidade.

se os donos eram mais negligentes, ficavam encostados numa berma em lenta decomposição. se mais estimados, eram trasladados para sucatas onde os seus orgãos eram vasculhados num processo estimavelmente ecológico e, peça por peça, regressavam ao pó metálico de onde tinham vindo.

por vezes, antes que adormecessem de vez, os carros velhos eram vendidos e, com sorte, ainda podíamos cruzar-nos com eles uma vez por outra e desse modo saber que continuavam vivos e em boa circulação. aconteceu assim com o mítico NSU Prinz 1000 que os meus pais tiveram nos anos 60 e 70: vários anos depois de ter sido vendido, ainda acontecia cruzarmo-nos com a sua inesquecível matrícula HC-64-29.

mas hoje os carros velhos já não interessam. nem que tenham sido os nossos companheiros de uma vida - ou mesmo, à falta de cão, mais um fidelíssimo membro da família. e, mesmo que não estejam propriamente velhos, basta já não serem novos. poucos interessam. pior, interessa que sejam eliminados, abatidos. é o ecologicamente correcto que inventou esta espécie de eutanásia automóvel.

o nosso polo vai ser abatido. foi o nosso carro por quase onze anos. veio para cá era o F bebé e já viu nascer a I . levou com as suas migalhas de bolachas e com os seus vómitos de viagem. carregou-nos e às nossas infindáveis tralhas por todas as nossas férias. deu-nos segurança e reservou sempre um lugar para o nosso anjo da guarda nos acompanhar não fossem os perigos da estrada espreitar-nos. nunca nos deixou ficar mal. nem uma vez. adeus.

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domingo, novembro 01, 2009

no Público, hoje

(clicar na imagem para aumentar)


Laura Ferreira dos Santos já escreveu quase tudo sobre que vida interessa preservar na morte. mas há muita gente que ainda não leu e é preciso continuar a escrevê-lo. para todos nós que um dia também perderemos a vida. para quase todos nós que um dia seremos "a família" dos que morrem. para aqueles de nós que trabalham segurando na mão a morte dos que já mal vivem.

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quarta-feira, maio 06, 2009

por quem os sinos dobram

vivo todos os dias com a certeza de que a morte só acontece aos outros. sei que não é assim mas, no fundo, não chego a acreditar no que sei. a não ser quando os sinos dobram nas torres das igrejas de sempre, as mesmas onde tantas vezes celebramos a vida (os nascimentos, as etapas vencidas, as escolhas). quando os sinos dobram são desespero puro (cruéis e implacáveis) e então sei que eles dobram por mim, e pelos meus.

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quinta-feira, novembro 13, 2008

a escolha de Hannah


Hannah é uma menina de treze anos, doente desde os quatro. teve uma leucemia, fez muita quimioterapia e, dizem, "uma dúzia de operações". entretanto, o seu coração quase que deixou de trabalhar. passou, nestes 9 anos, muito tempo no hospital, "demasiado", diz ela, "já passei por demasiada dor".

há tempos, os médicos decidiram que o próximo tratamento seria um transplante cardíaco, sem o qual Hannah não deveria viver 6 meses. mas, desta vez, Hannah decidiu que lhe competia a ela determinar como viveria a vida que lhe restava. e que não seria em hospitais, nem em cirurgias; nem a fazer quimioterapia, cravejada de agulhas; nem rodeada de médicos e de enfermeiras. decidiu que já chegava disso e, com uma comovente lucidez, explicou às TV de todo o mundo que os riscos dos transplantes em crianças eram muitos e que ela não desejava corrê-los. escolheu ficar em casa com os pais e irmãos, no seu quarto, com as suas coisas, até a morte chegar. pediu para ir à Disneyland e os pais talvez a levem.

mas um dos médicos não conseguiu compreender. na sua volúpia tecnológica e empenho em conquistar vida à morte, provavelmente ultra-especialista em doenças e super-hábil em sofisticadas intervenções, afinal não conhecia aquela menina nem sabia quase nada de crianças, nem de pessoas, nem de viver e queria obrigá-la a ser operada, nem que tivesse que a retirar da guarda dos seus pais. mas Hannah explicou-lhe, e a nós todos, que há uma altura em que viver mais não é o mais importante.

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sábado, setembro 22, 2007

porquê?

"«O que poderá levar um homem a destravar uma cadeira de rodas?», perguntou Mister deLuxe num tom de voz muito baixo. «A monotonia, a solidão, os sonhos espremidos até ao ossso, o falhado desejo louco de correr até o coração nos saltar pela boca», sugeriu Austin. «Acho que não, Austin», disse Mister DeLuxe, «acho que é a cadeira de rodas, ela mesmo»."

O que diz Molero (Dinis Machado, 1977)

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quando a morte sai assim à rua

quando alguém nos parte assim ficamos gelados, cheios de "e se", suspensos, desesperados por um recuo, uma última oportunidade, que não virá ("no more beginnings"). não fomos sufcientes. talvez nunca sejamos suficientes para segurar o fim, o apagar de uma chama ao vento cru da sua vida. é um murro no estômago perceber isso, toda a nossa inutilidade.

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sábado, maio 19, 2007

o meu trabalho II





ela contou-me como foi perder, aos 30, o homem (de quinze anos) da vida dela: como foi enfrentar a teimosia da doença, primeiro os dois lado a lado, depois ela atrás (a força dele à frente) e sozinha no fim, ao lado de um corpo que respirava mas já não era. contou-me como ouviram a morte a chegar: lenta (tão lenta que começaram a tratá-la pelo nome), o seu passo firme. contou de que é que tiveram medo e de como isso os deixou fazer uma espécie de preparação (mesmo se nunca ficaram preparados): como foi ouvir o homem dizer-lhe que era preciso que ela continuasse depois dele, em frente, em direcção a um futuro qualquer que ele já não conheceria – e ser isso que a segura, tantos meses depois. contou como foi feliz, tão feliz, por o ter, mesmo depois da doença ter começado tê-lo também. contou como foi que cresceram, amaram e viveram tudo juntos e a falta que agora sente disso. e de o ter. o espaço que ficou: vazio. a vida que já não está ali. mesmo se metade dela ainda é ele, meia vida passada à sua luz, dois num só, agora outra vez só um e já não sabe ao certo o que era cada qual. contou-me isto e havia um homem a brilhar no fundo da dor dos olhos dela e os meus doíam de não chorar - não se chora em trabalho – e fiquei outra vez a pensar que termo-nos, ainda, é uma espécie de eternidade.

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sexta-feira, fevereiro 09, 2007

da vida, da morte

"(...) A vida onde começa? Não sei. Talvez comece no momento em que começamos a perceber que pode mesmo acabar-se-nos. Não é preciso estarmos a morrer para percebermos isso, mas é preciso ter ao menos respirado ar uma vez para depois darmos conta que ele nos falta. Isso e mais coisas."

(Besugo, no blogamemucho)

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sábado, fevereiro 03, 2007

da vida, da morte II


falamos de tantas coisas, quando falamos de vida: de plantas, de animais, de pessoas, de células (rudimentares ou diferenciadas, cancerígenas ou precursoras de mais vida), de embriões de 10 semanas, de fetos de 30 semanas, de um bebé que nasce. mas falamos de menos coisas quando falamos de morte, do que nos morre.

uma gravidez que termina espontaneamente nas primeiras semanas (o que se crê que acontece em cerca de 20% de todas as gestações), muitas vezes nem é notada. se eu perco um bebé às 10 semanas, posso chorar, posso dizer "foi a natureza a fazer o seu trabalho" ou até que "Deus não quis". mas nunca direi que me morreu um filho. a minha mãe nunca chorará ter-lhe morrido um neto.

(a própria linguagem técnica distingue as várias vidas, em função da sua morte: dizemos primeiro "gravidez não evolutiva", “abortamento”, para algumas semanas depois dizermos “morte fetal in utero”)

há vida de uma forma diferente quando nos morre um filho (essa dor atroz que não desaparece jamais).

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da vida, da morte


vida não é um conceito universal, nunca foi até chegarmos onde estamos. e pode dizer-se das diferentes vidas pelas diferenças do seu oposto, a morte:

formigas morrem todos os dias na minha cozinha, sou uma dona de casa limpa. se eu matar, como digo que me apetece, a pomba que me suja a varanda, sou bárbara. um lince morreu na Malcata, é trágico. conheço pessoas a quem morrem animais. morrem-lhes, como se fossem família, amigos. a vida animal, dependendo assim, de ser, ou não, investida dos afectos humanos.

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sexta-feira, dezembro 01, 2006

o mês mais cruel



hoje sinto-me como se toda a vida tivesse esperado por um blog: para poder partilhar coisas como começar o mês ao som avassalador deste Waterboys, o fulvo estonteante das árvores que avisto do meu trabalho, a culpa por nunca ter chegado a tempo de telefonar à F (e por ela ter decidido morrer num dezembro assim), as saudades terríveis de tudo o que poderíamos ter sido.


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domingo, novembro 26, 2006

"faltavam-lhes muitas vidas"

soube as más notícias já depois de no post anterior ter eleito o Respirar o Mesmo Ar como o melhor blog colectivo de 2006.

"É quase impossível falar disto. Sabemos que estamos ligados nesta estupidez de sentir. No Record e no DN. No nosso silêncio estuporado, a Cláudia. Eram todos muito novos e faltavam-lhes muitas vidas."

JPN no Respirar o Mesmo Ar

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sábado, setembro 09, 2006

não há outra forma de o dizer


tenho-me perdido a vasculhar no meu baú e o meu baú está cheio de fotografias e está a tornar-se evidente que, não há outra maneira de o dizer,

as minhas fotografias começam a ser povoadas por pessoas que já morreram

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sábado, junho 10, 2006

o meu trabalho


o meu trabalho é às vezes usar o cérebro, o melhor raciocínio, a lógica, a dedução, como o jogo aprendido na faculdade (quando ainda era a brincar), o jogo em que me viciei nos primeiros anos de hospital: juntar queixas e sinais até obter uma série de hipóteses testadas metodicamente até chegar à meta: o diagnóstico.

outras vezes (que são muitas vezes quando se sai dos hospitais para os centros de saúde), o meu trabalho é desistir da lógica, usar menos o cérebro e mais o coração, e deduzir deduzir deduzir, decifrar as pistas que me conduzem ao sofrimento invisível que trouxe as pessoas até mim.

tenho dias em que acredito que a minha função é ser digna desse sofrimento, ser digna das pessoas que me procuram e da dor que me revelam, e, nesses dias, sem sinais nem diagnósticos, sei que o meu trabalho é ser, eu própria, o tratamento.

mas, raramente, o meu trabalho é outra coisa, terrível, insuportável: é quando me aparece um homem novo e bonito que traz a morte encostada a ele – e ele ainda não sabe -, a morte a respirar com ele, a falar por ele, decidida e implacável. e enquanto esse homem não me faz perguntas eu só consigo ficar a olhá-lo para lá dessa hora, a vê-lo no dia em que ele souber quão breve vai deixar a vida, a mulher, os filhos pequenos, o seu corpo. quando é assim, não há raciocínio, não há jogo, a respiração suspende-se, o coração enraivece-se

e, por momentos, trabalhar é ter medo, é esquecer esse homem e as outras pessoas que me procuram, e julgar ver, por cima do seu ombro, a morte a piscar-me o olho – a mim, ao meu homem, aos meus filhos -, como quem diz, já volto.

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domingo, janeiro 29, 2006

gélida

a morte chegou durante a noite. veio pela mãe de um amigo e, embora anunciada, apanhou-nos assim: indefesos, frágeis, tristes.

desta vez, ouvi os seus passos a aproximarem-se e ao revê-la, perturbada como nunca, aflorou-me à boca o insulto:

ceifeira

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