sábado, maio 23, 2009

livros no metro


custou-me 350$00 em 1996, este e cada um dos outros livrinhos com a chancela da Expo 98 que 2 anos antes apareceram nas livrarias. as capas eram assim alegres, o toque macio e o tamanho vinha acoplado a um preço muito tentador para os títulos e escritores que traziam dentro. a colecção somava 98 unidades das quais acabei por comprar uma dúzia mas, mais de 10 anos depois, e apesar de colocados numa das minhas prateleiras preferidas (mesmo à frente deste meu posto de trabalho diário e encostados aos livros do João Lobo Antunes e do Daniel Sampaio), nunca li nenhum deles até há dias.

andava há muito para resolver o conflito entre o gosto de ler no metro e a dimensão da minha carteira. subitamente lembrei-me desta colecção, escolhi um ao acaso e está a ser fantástico. a viagem de 10 minutos para cada lado dá para ler meia dúzia de páginas e deixa-me sempre um sabor a pouco. acho que até me olham com inveja quando saco da carteira este volumezinho cor-de-laranja. e aqueles que conseguem, do outro lado do banco, descortinar o nome do Jorge de Sena, esses até se roem. e eu vou lendo.

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sexta-feira, junho 30, 2006

leitura em voz alta


parece que o badalado Plano Nacional de Leitura prevê um forte ataque nas escolas que inclui a instituição da prática da leitura em voz alta, não só no pré-escolar mas também nos anos seguintes em que as crianças já saberem ler para si.

desde que Jim Morrison me ensinou "An American Prayer" que conheço a força poderosa das palavras ditas. e, depois de Carlos Tê ("Guardador de Margens"), das cantadas também. ainda há tempos, ao ouvir na TV (entre um telejornal e um concurso) Diogo Infante a dizer "Noutros Lugares", a paixão por um autor que desconhecia foi imediata: nunca mais parei de ler Jorge Sena.

e que dizer de H Ribeiro, quieto e camuflado pela vegetação da serra, a dizer, sem música alguma "eu fui ver a minha amada / lá nos campos eu fui ver / dei-lhe uma rosa encarnada / para de mim se prender"? H Ribeiro dizia poesia como se falasse de mim, para mim, para cada um dos que o ouviam ("como é que ele saberia que…?"). as palavras dos outros estendidas até mim pela sua voz transformavam-se nas minhas próprias palavras.

não sei o que aconteceu primeiro: se, como escreveu Yourcenar, a palavra escrita me ensinou a ouvir a voz humana, ou se foi a voz humana que me ensinou a amar palavra escrita. só sei que acredito no poder da leitura em voz alta como acredito na luz do sol, no amor e nos sonhos.

há dias, num Jornal de Letras, António Torrado, escritor da infância, defendia a prática da leitura em voz alta nas salas de aula, bem como a inclusão nos programas escolares da leitura integral de obras infantis, em oposição à constante fragmentação a que actualmente estas obras são sujeitas nos manuais.

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domingo, abril 09, 2006

foi assim


uma semana a dormir 10 horas por dia, a comer pão alentejano torrado com manteiga, a ler e a apanhar sol de manhã à noite (com dois diazitos de chuva pelo meio que só serviram para dormir, comer e ler ainda mais). e mais não digo para a inveja não invadir a linha.

li três livros intensos (além de dois que nem por isso):

  • Sinais de fogo (Jorge de Sena): prometido a mim própria desde que o descobri meu desconhecido na listagem dos "cinco romances portugueses dos últimos 30 anos" promovido há uns meses pelo A natureza do mal *. É um livro que nos prende pelo pescoço, duro (uma espécie de Fado Alexandrino - também muito referido na votação desses "5 mais" - dos anos 30) mas que se lê sem dó e com o mesmo embalo da escrita de "Noutros Lugares".
  • Borges e os orangotangos eternos (Luís Fernando Veríssimo): um livro feliz descoberto num feliz acaso (D vou-to emprestar logo que H mo devolva, é uma escrita que me lembra de ti ao virar cada página).
  • As duas águas do mar (Francisco José Viegas): um romance vestido de policial (a lembrar com saudade Manuel Vazquez Montálban) repleto de paisagens que revestem o meu imaginário, Finisterra, na Galiza, e a ilha de S. Miguel

*por lapso, na 1ª versão deste post, referi que a iniciativa havia sido do Da literatura, blog também muito activo na divulgação da mesma


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terça-feira, março 21, 2006

no dia mundial da poesia


"Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam, ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

(...)

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circustâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço."

Noutros Lugares, Jorge de Sena

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