domingo, maio 28, 2006

os mares do sul


a manhã nascia enquanto percorríamos aqueles lugares lavados e vazios. ilógicos àquela hora e àquele silêncio. vimos, nessa manhã tão cedo, a luz as pessoas as cores e nós a acordar. as fotografias talvez não valessem a pena: aquela luz pedia mais que isso. e, no entanto, fotografávamos. eram ofuscantes as cores de Santorini. era esta nitidez ou era ainda mais nítido que isto.

ligamos o gravador e de outra dimensão (fixada anos-luz distante dali) surgiu magicamente a voz de D: “última mensagem: esquecemos há muito as últimas letras do alfabeto grego”, exactamente ao mesmo tempo em que começávamos a soletrar as primeiras palavras do grego essencial: σ’αγγπώ (sim, eu amava-te).

nas primeiras horas da manhã de Santorini fechava-se os olhos às vezes para se conseguir acreditar. tiravam-se fotografias embora se soubesse que aquelas cores não se conservariam em papel algum. percebendo que estava a viver dentro da história de “Os mares do sul”, repeti com os poetas:

leio, pela noite fora
e no Inverno viajo para o sul
(T S Eliot)

estou entre os afortunados que viram a aurora
nas ilhas mais belas à face da terra
à recordação sorrio e digo que quando o sol se levantava
era já velho o dia para nós
(C Pavese)

mais ninguém me levará para sul (S Quasimodo)

(os últimos e parágrafos são fragmentos (adaptados aqui e ali) de 3 poemas, no conjunto dos quais se centrava o enigma de “Os mares do sul – um folhetim para o Verão”, história policial romântica - na sua linha mais típica - que Manuel Vásquez Montalbán publicou ao longo de vários números do Expresso, em 1986).

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domingo, abril 09, 2006

foi assim


uma semana a dormir 10 horas por dia, a comer pão alentejano torrado com manteiga, a ler e a apanhar sol de manhã à noite (com dois diazitos de chuva pelo meio que só serviram para dormir, comer e ler ainda mais). e mais não digo para a inveja não invadir a linha.

li três livros intensos (além de dois que nem por isso):

  • Sinais de fogo (Jorge de Sena): prometido a mim própria desde que o descobri meu desconhecido na listagem dos "cinco romances portugueses dos últimos 30 anos" promovido há uns meses pelo A natureza do mal *. É um livro que nos prende pelo pescoço, duro (uma espécie de Fado Alexandrino - também muito referido na votação desses "5 mais" - dos anos 30) mas que se lê sem dó e com o mesmo embalo da escrita de "Noutros Lugares".
  • Borges e os orangotangos eternos (Luís Fernando Veríssimo): um livro feliz descoberto num feliz acaso (D vou-to emprestar logo que H mo devolva, é uma escrita que me lembra de ti ao virar cada página).
  • As duas águas do mar (Francisco José Viegas): um romance vestido de policial (a lembrar com saudade Manuel Vazquez Montálban) repleto de paisagens que revestem o meu imaginário, Finisterra, na Galiza, e a ilha de S. Miguel

*por lapso, na 1ª versão deste post, referi que a iniciativa havia sido do Da literatura, blog também muito activo na divulgação da mesma


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