domingo, outubro 07, 2007

Carlos Tê

o tempo passa e não cesso de me deslumbrar com a escrita deste homem que dá corpo à música de Rui Veloso. sempre achei que, para além da dupla musical, dele viriam um dia grandes livros, grandes histórias. o mundo da música está cheio de escritores mas Carlos Tê, escrevendo sempre à roda da vidinha e do que nos é tangível (a cidade, o amor, a melancolia de viver), é magistral - provocando frequentemente a sensação de nos roubar da ponta da pena aquilo que nós estávamos quase quase a escrever (mas, claro, nunca conseguiríamos).

nos meus tempos de departamento cultural da associação de estudantes da faculdade (dando cumprimento ao lema de Abel Salazar, nosso patrono: "um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe"), estive na organização de um concurso literário* para cujos júris decidimos convidar, além de um escritor e de um professor dado à literatura, um escritor de letras de música. foi assim que um dia fui parar, com o molho de contos concorrentes à modalidade de prosa, a casa de Carlos Tê. impressionou-me que um homem para mim tão obviamente condenado a um estrondoso sucesso literário tivesse afinal um emprego banal e vivesse num apartamento simples na outra margem. ainda assim considero um privilégio, um passe de mágica, ter chegado à fala com esse meu ídolo feito de palavras.

(*já não me lembro se foi nesse concurso que a H ganhou o primeiro prémio de prosa, ficando com a promessa, nunca cumprida, de publicação)

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Guardador de Margens

"Enquanto a cidade inteira vai digerindo o seu jantar
E todas as ruas e praças se lavam com essência de luar
Enquanto as estátuas famosas bebem brandies e aveledas
E as tílias se entreolham meigamente nas alamedas
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a meia-noite encerra mais uma sessão
E o senso-comum ressona tranquilo e pesado no colchão
Enquanto a cidade inteira lava os dentes e faz toilete
E os taxistas recolhem as sombras que restam da noite
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a luz do promontório ensina a costa ao barqueiro
E arde o rum forte no zimbório e traz lucidez ao faroleiro
Vou pondo malha sobre malha com o labor dum tapeceiro
Palavra, acorde, som, a talha e a devoção dum mestre-oleiro
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim

Enquanto a cidade inteira vai feliz na sua faina
E o sol boceja na ladeira ao som do martelo e da plaina
Saúdo a bruma e o orvalho e a luz do dia madrugado
Guardo as cartas no baralho meu sono é enfim chegado
Vou guardando as margens
Velando os lírios do jardim
"

Carlos Tê, para a música de Rui Veloso

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sábado, abril 21, 2007

os anos da minha vida

habitualmente relutante em aderir a estas promoções, decidi experimentar esta colecção de CD "50 anos de música" que o Público tem vindo a divulgar. um após o outro fui comprando todos e agora sei que não perderei nenhum.

está lá tudo, desde os sons da infância, anteriores ao prazer de ouvir música, passando pela euforia do rock português que vivi com 13 anos, depois pela música popular portuguesa que descobri (e cantei e toquei) nos campos de férias, pelas bandas a que fiquei fiel quando me tornei mais ou menos adulta, tudo, acabando nos sons novos que fui apenas entreouvindo na azáfama dos últimos anos, com a sensação de que algo me estava a escapar.

estão lá os primeiros concertos (o meu primeiro, no ano de 1979, em Almada: UHF), a descoberta de que as letras de música portuguesa podiam ser tão ou mais belas que as inglesas (Carlos Tê, Rui Reininho), o som das noites longas dos 20 anos, as bandas heterogéneas que trazíamos às noites da queima no Porto, pérolas clássicas (a Pedra Filosofal e a guitarra do Carlos Paredes), temas que me fascinaram em tempos e nunca mais tinha ouvido, canções que nunca tinha escutado, versões diferentes de outras que já conhecia bem e até João Villaret a dizer o Cântico Negro.

são 50 anos que cabem inteiros nos meus 40 e devolvem-me hoje sensações, cheiros, histórias e gente que conheci. são CD híbridos, recônditos às vezes, fascinantes quase todos, cristalinos. e é como se neles conseguisse reconhecer cada ano da minha vida.


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sexta-feira, junho 30, 2006

leitura em voz alta


parece que o badalado Plano Nacional de Leitura prevê um forte ataque nas escolas que inclui a instituição da prática da leitura em voz alta, não só no pré-escolar mas também nos anos seguintes em que as crianças já saberem ler para si.

desde que Jim Morrison me ensinou "An American Prayer" que conheço a força poderosa das palavras ditas. e, depois de Carlos Tê ("Guardador de Margens"), das cantadas também. ainda há tempos, ao ouvir na TV (entre um telejornal e um concurso) Diogo Infante a dizer "Noutros Lugares", a paixão por um autor que desconhecia foi imediata: nunca mais parei de ler Jorge Sena.

e que dizer de H Ribeiro, quieto e camuflado pela vegetação da serra, a dizer, sem música alguma "eu fui ver a minha amada / lá nos campos eu fui ver / dei-lhe uma rosa encarnada / para de mim se prender"? H Ribeiro dizia poesia como se falasse de mim, para mim, para cada um dos que o ouviam ("como é que ele saberia que…?"). as palavras dos outros estendidas até mim pela sua voz transformavam-se nas minhas próprias palavras.

não sei o que aconteceu primeiro: se, como escreveu Yourcenar, a palavra escrita me ensinou a ouvir a voz humana, ou se foi a voz humana que me ensinou a amar palavra escrita. só sei que acredito no poder da leitura em voz alta como acredito na luz do sol, no amor e nos sonhos.

há dias, num Jornal de Letras, António Torrado, escritor da infância, defendia a prática da leitura em voz alta nas salas de aula, bem como a inclusão nos programas escolares da leitura integral de obras infantis, em oposição à constante fragmentação a que actualmente estas obras são sujeitas nos manuais.

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