não sei se ainda se fazem concursos literários como aquele de que falei no post sobre Carlos Tê. foi há cerca de 20 anos, não sei datas certas, e em Biomédicas a ideia foi copiada da Faculdade de Ciências que durante alguns anos teve um concurso assim. demos-lhe o nome de Abel Salazar, nada mais apropriado, adaptamos um regulamento e num entusiasmo fenomenal avançamos.
este "nós" éramos, se bem me lembro, eu e o João Luís do Poesia & Lda.. o júri de prosa integrava o Carlos Tê, o Dr. Soares de Sousa (um internista nosso professor na cadeira de Medicina), a escritora Filomena Cabral (de quem nunca li nenhum livro mas que, ao contrário do Carlos Tê, possuia sinais exteriores de vida literária) e talvez eu própria (já não estou certa de nos termos incluído nos júris, enquanto estudantes e aspirantes a escritores, pois claro).
para o júri de poesia conseguimos outro personagem fantástico: Rui Reininho, himself. mal refeita da surpresa por ele ter aceitado o nosso convite, encontramo-nos no Velasquez para a troca de manuscritos e para o que viria a ser uma espécie de primeira consulta da minha vida. além do cantor, faziam ainda parte o Dr. Manuel Laranjeira (o neurocirurgião, ele próprio, que o João Luís sabia ser dado à poesia), a poetisa Inês Lourenço e, provavelmente, o João Luís (que, ao contrário de mim, passou muito além de aspirante a escritor).
recordo vagamente o resto: os manuscritos (indescritível como tudo era quando poucos usavam computadores), as reuniões dos júris no edifício soturno em que a faculdade se transformava durante a noite e os prémios que incluíam a publicação do texto a concurso (o que nunca aconteceu porque entretanto mudou a direcção da associação de estudantes e a literatura não veio a ser uma prioridade de quem chegou). foi a H que arrebatou o prémio de prosa, tenho quase a certeza. e é uma vergonha mas não me lembro quem ganhou na modalidade de poesia.
adenda (com a memória disponível do João Luís): o prémio de poesia foi para Óscar Faria (ver caixa de comentários).
habitualmente relutante em aderir a estas promoções, decidi experimentar esta colecção de CD "50 anos de música" que o Público tem vindo a divulgar. um após o outro fui comprando todos e agora sei que não perderei nenhum.
está lá tudo, desde os sons da infância, anteriores ao prazer de ouvir música, passando pela euforia do rock português que vivi com 13 anos, depois pela música popular portuguesa que descobri (e cantei e toquei) nos campos de férias, pelas bandas a que fiquei fiel quando me tornei mais ou menos adulta, tudo, acabando nos sons novos que fui apenas entreouvindo na azáfama dos últimos anos, com a sensação de que algo me estava a escapar.
estão lá os primeiros concertos (o meu primeiro, no ano de 1979, em Almada: UHF), a descoberta de que as letras de música portuguesa podiam ser tão ou mais belas que as inglesas (Carlos Tê, Rui Reininho), o som das noites longas dos 20 anos, as bandas heterogéneas que trazíamos às noites da queima no Porto, pérolas clássicas (a Pedra Filosofal e a guitarra do Carlos Paredes), temas que me fascinaram em tempos e nunca mais tinha ouvido, canções que nunca tinha escutado, versões diferentes de outras que já conhecia bem e até João Villaret a dizer o Cântico Negro.
são 50 anos que cabem inteiros nos meus 40 e devolvem-me hoje sensações, cheiros, histórias e gente que conheci. são CD híbridos, recônditos às vezes, fascinantes quase todos, cristalinos. e é como se neles conseguisse reconhecer cada ano da minha vida.
aconteceu por acaso, a escolha do Purple Rain para inaugurar o som na linha do norte. num fim-de-semana em que a chuva se fez ouvir caindo forte do lado de lá da janela, procurei em vão o rain dos MS&D, passei pela tempestade do riders on the storm e, por ensaio e erro, à volta do template e da críptica linguagem html, acabei no Prince.
a memória da música é palpável, tal como a memória dos cheiros e dos sabores - por exemplo, o gosto de pão com atum e tomate transporta-me sempre para o coração da serra e o tórrido perfume spellbound (amaldiçoado - de Estée Lauder) devolve-me invariavelmente ao ritmo alucinante de Salvador da Bahia.
a memória deste Purple Rain ficou ancorada numa noite de há 20 anos, no LaLaLa (Porto), um bar impensável de tecto baixo e uma quantidade de fumo inadmissível, que ficava no defunto shopping Dallas. o DJ do LaLaLa (cujo nome nunca soube, um homem da noite do Porto que revisitei um pouco mais tarde no meteórico - e atípico e irresistível - Lux) conseguia pôr música de dança de uma consistência qualitativa então difícil e rara num bar (onde se dançava como numa mini discoteca).
nessa noite estava no LaLaLa o Rui Reininho e, já de madrugada, como quem despede sem vontade os últimos clientes, o DJ solta no ar o Purple Rain. a guitarra avassaladora, a pista quase vazia, o meu amigo X (o primeiro deus que conheci que sabia dançar), tudo me convidou para uma última dança. a partir do meio da música, o som das colunas baixa um pouco e surge a voz do Rui Reininho a envolver a do Prince, terminando num coro em que "chuva roxa, chu-uva roxa" se sobrepôs magistralmente a "purple rain, pu-urple rain".
Sou tão enthusiasta pelos caminhos de ferro, que, se fosse possível, obrigava todo o paíz a viajar de comboio durante 6 meses (Fontes Pereira de Mello)