chuva roxa no LaLaLa

aconteceu por acaso, a escolha do Purple Rain para inaugurar o som na linha do norte. num fim-de-semana em que a chuva se fez ouvir caindo forte do lado de lá da janela, procurei em vão o rain dos MS&D, passei pela tempestade do riders on the storm e, por ensaio e erro, à volta do template e da críptica linguagem html, acabei no Prince.
a memória da música é palpável, tal como a memória dos cheiros e dos sabores - por exemplo, o gosto de pão com atum e tomate transporta-me sempre para o coração da serra e o tórrido perfume spellbound (amaldiçoado - de Estée Lauder) devolve-me invariavelmente ao ritmo alucinante de Salvador da Bahia.
a memória deste Purple Rain ficou ancorada numa noite de há 20 anos, no LaLaLa (Porto), um bar impensável de tecto baixo e uma quantidade de fumo inadmissível, que ficava no defunto shopping Dallas. o DJ do LaLaLa (cujo nome nunca soube, um homem da noite do Porto que revisitei um pouco mais tarde no meteórico - e atípico e irresistível - Lux) conseguia pôr música de dança de uma consistência qualitativa então difícil e rara num bar (onde se dançava como numa mini discoteca).
nessa noite estava no LaLaLa o Rui Reininho e, já de madrugada, como quem despede sem vontade os últimos clientes, o DJ solta no ar o Purple Rain. a guitarra avassaladora, a pista quase vazia, o meu amigo X (o primeiro deus que conheci que sabia dançar), tudo me convidou para uma última dança. a partir do meio da música, o som das colunas baixa um pouco e surge a voz do Rui Reininho a envolver a do Prince, terminando num coro em que "chuva roxa, chu-uva roxa" se sobrepôs magistralmente a "purple rain, pu-urple rain".
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