"Quando a rotina morde e a ambição se esfuma o ressentimento domina e a emoção se muda e mudamos os nossos modos em diferentes caminhos o amor o amor é que nos desfaz
A cama está fria pois escolheste o outro lado o meu tempo desfeito e o respeito deslaçado mas há sempre este mote que nos guiou toda a vida o amor o amor é que nos desfaz
Choras enquanto dormes e expões o meu fracasso deixas-me um gosto na boca de desespero e cansaço uma coisa tão feliz que agora se desfez o amor o amor é que nos desfaz"
(o meu obrigada ao PM por esta versão, pedida há umas semanas para o mail do Estado Civil - quando ninguém respondeu ao meu apelo aqui na linha - e finalmente publicada, por um acaso feliz, em simultâneo com a versão do AMC; bem haja por também seguir este filão)
"Quando a penosa rotina magoa, e frágeis são as ambições, e o ressentimento alto voa, mas não crescerão as emoções. E estamos a mudar os nossos caminhos, seguindo por estradas diferentes.
Então o amor, o amor afastar-nos-á de novo.
Por que está o quarto tão frio? Voltaste-te para teu lado do leito. Não intervim em tempo digno? Expirou o nosso mútuo respeito. Porém ainda resiste esta atracção que sobreviveu às nossas vidas.
Mas o amor, o amor afastar-nos-á de novo.
Choras durante o teu sono, expõem-se todos os meus fracassos. Na minha boca forma-se um gosto, sempre que o desespero aperta o laço. E como algo tão bom deixou de poder continuar.
Enquanto o amor, o amor afastar-nos-á de novo."
Ian Curtis, Love will tear us apart, 1980 [versão: O amor afastar-nos-á, de AMC, 2007]
resisti mal a esta versão (de uns noruegueses até aqui desconhecidos: Susanna & the Magical Orchestra) que PB compilou na Ponte das 3 Entradas. julgava que conhecia esta canção: do original pesado dos Joy Divison, passando por Nick Cave e terminando nos vários remix que a certa altura foram a coqueluche das discotecas (final dos anos 90?). mas quando uma mulher começa a cantar vagarosa sobre apenas uns leves toques da melodia de Ian Curtis, cairam-me aos pés as palavras dum poema que afinal nunca tinha escutado decentemente (palavras do desencontro que o amor adivinha quando começa a doer). e a voz da Susanna a dizê-lo, lentamente, os instrumentos por trás quase imperceptíveis. resisti mal, confesso: todo o dia no mp3, nos intervalos do trabalho, no metro, de volta a casa, todo o dia, neste embalo, neste desencanto, nesta sabedoria.
love will tear us apart foi gravado em estúdio poucos meses antes do suicídio de Ian Curtis. a sua mulher inscreveu-o para todo o sempre na sua lápide. viciada em traduções livres, desta vez não fui capaz (no site de Ian Curtis está disponível uma tentativa de tradução, miserável aliás). haverá por aí alguém se atreva? por favor?
"when routine bites hard and ambitions are low and resentment rides high but emotions won't grow and we're changing our ways, taking different roads
then love, love will tear us apart, again love, love will tear us apart, again
why is this bedroom so cold turned away on your side? is my timing that flawed our respect run so dry? yet there's still this appeal that we've kept through our lives
love, love will tear us apart, again love, love will tear us apart, again
do you cry out in your sleep all my failings exposed? get a taste in my mouth as desperation takes hold is it something so good just can't function no more?
when love, love will tear us apart, again love, love will tear us apart, again and love, love will tear us apart, again love, love will tear us apart, again"
na ponte das 3 entradas, PB deixa-nos uma colectânea de, nada mais nada menos que, oito versões de uma das mais belas canções de sempre: love will tear us apart. são pérolas em estado bruto. imperdíveis.
(esta canção já foi uma vez evocada nesta linha a propósito de um amigo do DN Jovem de quem os amigos das 3 entradas talvez também ainda se lembrem: o Carlos Gomes)
"um dos produtos era uma chapa de ferro deixada na terra durante alguns dias, creio que uma semana. Uma chapa de ferro enterrada num quintal, apodrecida, enferrujada por fim onde fora escrito de um lado LOVE WILL TEAR US APART. Há uma separação nestas coisas, a beatitude que surge através de um exílio surdo face à realidade. Solidão, solidão, ainda um modo de revelar-se fiel a um corpo musical projectos nascidos já para o esquecimento e talvez por isso ganhando logo a eternidade e o culto dos que se querem perder, esfacelar na memória"
Sou tão enthusiasta pelos caminhos de ferro, que, se fosse possível, obrigava todo o paíz a viajar de comboio durante 6 meses (Fontes Pereira de Mello)