quinta-feira, março 29, 2007

MEC no seu melhor

"(...) São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. (...)"

(excerto de uma daquelas argumentações apaixonadas de Miguel Esteves Cardoso, desta feita sobre o Norte)

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domingo, dezembro 24, 2006

as prendas: o problema de receber

tenho um problema com prendas: quando pacientes me oferecem coisas fico imensamente desconfortável e ainda não decidi se é por:

  • temer que quem oferece espere algo em troca?
  • sentir que a oferta gerará um conflito de interesses que gostaria de evitar?
  • a gratidão que depreendo destas ofertas resultar exclusivamente do exercício das minhas funções enquanto profissional de um serviço público, pelo qual sou devidamente remunerada (e a um nível provavelmente superior ao da maioria das pessoas que me presenteiam)?
  • sentir nesse gesto de "comparecer" com um presente perante o médico um odor do "respeitinho" típico deste país: um misto de devoção, temor, afirmação de uma posição, ameaça e garantia futura?
  • não saber, simplesmente, receber? guardo desde 1995 uma crónica de Miguel esteves Cardoso intitulada "Receber" que foi ao osso de um problema que tenho desde pequenina: receber, como escrevia MEC, sempre me custou, me fez sentir culpada (precisamente do desejo de receber), me fez sentir não merecedora.

provavelmente será um pouco de tudo em proporções variáveis, dependendo da oferta e de quem oferece, levando a que umas vezes eu me zangue, outras tente recusar (mas já aconteceu recusar uma prenda e virem oferecer-me outra, como se eu tivesse regateado), e outras acabe aceitando humildemente, advertindo embora que não seria necessário presente nenhum .

MEC dizia que "Dar sem esperar nada em troca e receber sem sentir a obrigação de retribuir é a nossa única salvação. E é tão fácil que até chateia". Mas não é, não é nada fácil.

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sábado, setembro 02, 2006

em memória d'O Independente

O Independente foi para mim uma revelação: um jornal podia falar de coisas interessantes sem ser sisudo; podia fazer sonhar, como os livros; podia publicar fotografias malucas e poemas ou mesmo falar de música; em suma trazia-me todas as sextas as coisas que me fascinavam na época e que até então só surgiam impressas no underground (nos fanzines, por exemplo). tenho muitos recortes desses primeiros anos, a maioria à volta de textos de Miguel Esteves Cardoso (que era para mim a face / a escrita mais visível dessa descoberta).

soube agorinha, por este blog e por este, que o Independente acabou (hoje). e fiquei triste, embora já não me lembre há quantos anos deixei de o ler (só sei que foi antes de deixar de ler o Expresso). apesar de tudo, fiquei com pena, como quem lamenta morte de um amigo de juventude que acabou por se perder por maus caminhos e com quem nunca mais nos cruzamos; como se ainda esperasse que um dia, sei lá, pudéssemos voltar a estar juntos.

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domingo, abril 16, 2006

pretérito quase perfeito


"(...) Não se contam os adeuses nem as solidões, ou as partidas, que foram desaguar, como afluentes da nossa adolescência, ao mar manso e morto da música de Leonard Cohen. Aí ganhavam algum sossego, alguma companhia. Não compreendíamos as palavras, não conhecíamos os sítios, mas, à mesma, mergulhávamos nessas águas paradas de tanto correr, mornas à passagem dos nossos corpos doridos, cintilantes sob o hálito luminoso da lua. Na música de Leonard Cohen encontrávamos, pois, os nossos barcos.

Esses barcos não rumavam a lugar algum; nunca os conseguimos desatracar das nossas imaginações. Imaginações como cartas de navegação: Calcutá, Macau, Ceuta, Liverpool, Lisboa. Imaginações como viagens: vapor, mulheres de negro, absinto, contrabandistas, porões. Os nossos barcos aportavam apenas ao silêncio, ao silêncio de um sonho.

Ao silêncio de um sonho íamos amando. Eram tão largas as paixões em que caíamos! Caíamos indefesos e atordoados mas, mesmo assim, nunca desejamos escarpar-lhes. Em vez dos lábios duma mulher, em vez dos braços duma menina, beijávamos o espelho da casa de banho, abraçávamo-nos às almofadas da cama. E em vez de palavras como 'amo-te, amo-te' sussurradas aos ouvidos, ouvíamos as cantigas de Leonard Cohen. (...)"


(excerto de um texto de Miguel Esteves Cardoso intitulado "Leonard Cohen, o homem que trabalha o tempo", divulgado numa emissão do programa de rádio "Pretérito Quase Perfeito" dedicada a LC e emitida em Janeiro de 1982)

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