segunda-feira, dezembro 10, 2007

sonhos

estas noites povoadas de sonhos: rapazes, forças magnéticas, amores que talvez comecem, partidas, saudades, dúvidas. fios nervosos, objectos sensoriais, vindos de um tempo em que a vida ainda não tinha acontecido, o futuro era uma vastidão que se abria no horizonte e o coração uma perigosa área de piso escorregadio.


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sábado, junho 23, 2007

chama-lhe big bang

Alberoni chamou-lhe estado nascente, transcendência: a vida retirada da contigência, do quotidiano. outros chamam-lhe o coma (induzido) da razão. ou a invasão armada da nossa memória poética (Kundera). como um sangue diferente a jorrar-nos por dentro, que depois se aloja adormecido no nosso corpo vulnerável, pronto a acordar (poderoso, alienante).

às vezes ainda sonho que me acontece (e no sonho está lá tudo, intacto). outras vezes sonho que ainda fumo: que tenho um maço de SG ventil quase cheio na mão e que posso fumá-lo inteiro.

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quarta-feira, março 21, 2007

dicionário khazar

de blog em blog, de post em post, neste ócio precioso que é olhar, ouvir e ler os outros, estabelecendo laços e pontes que refazem o significado das coisas, fui parar outra vez a este livro, de todos o mais improvável e fascinante que já li e que apetecia trazer aqui quase inteiro pois, página a página, é pelo sonho e pelo vento que ele nos leva.

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domingo, outubro 01, 2006

sonho recorrente II

ainda acontece
continua a acontecer
a espaços
reencontrar-te de noite
por acaso
descobrir-me ao teu lado
e
ao fim de tantos anos
tanta vida decorrida
tanto caminho escolhido
numa direcção diferente
da tua e daquilo
que foi o nosso tempo
ao fim de tudo
a sensação surge exacta
perfeita
no mesmo preciso local
da alma
do coração
do peito
do pescoço
a sensação de um conhecimento absoluto
da confiança sem guardas de
nos encostarmos um ao outro e tudo
em nós
- os dois -
tudo, os braços, os ombros,
as mãos, as costas,
o ar que respiramos
tudo em nós
- menos a boca -
diz: que bom ainda estares aí
e não ser preciso dizer
nada

revisita-me este sonho
há tantos anos
este conforto inominável que
é ter-te tido e isso ser
ainda ter-te em algum lugar
teres-me assim
sem jamais me tocares

revisita-me este sonho e
contamina-me o dia
envolve-me a alma
uma camada de ar quente
cobre-me a pele - impura -
todo o dia, beliscando-me
amiúde pela manhã
e começando a esfumar-se a
diluir-se pela tarde
para chegar à noite
outra vez quase sozinha
outra vez sem saber como
éramos como fomos

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sonho recorrente I

tenho este sonho recorrente: começo a correr mas sou contrariada por uma força invisível e muito intensa: como se um vento poderoso soprando de frente me suspendesse nos meus próprios passos, me lentificasse os movimentos quase até à paralisia, me desse às pernas um peso viscoso. e então, pensando no sonho "que maçada, lá estou eu outra vez sem conseguir correr", decido usar uma estratégia: viro-me de costas e continuo a correr, mas para trás. a oposição antes sentida não apenas cessa mas é como que aproveitada na nova posição para impulsionar a corrida e lá vou eu, sentindo-me um nadinha ridícula mas tão veloz quanto uma corrida de costas poderá ser.

de tanto se repetir, já não é bem um pesadelo. é mais um aborrecimento, parece quase um castigo.

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