sábado, março 07, 2009

Como ardemos na Linha

Quase histórias, com cheiro a fuligem


1 - Era Agosto. Tinha uma carrinha Brasília branca e velha e a carta há muito pouco. Levei-a comigo para Porto de Mós e nela, eu e o David fugíamos para ir beber café forte ao tasco da estrada. Tínhamos os montes, a felicidade do Verão e da vida inteira, a música dos This Mortal Coil.

Eu tinha como destino o de trazer a carrinha para sul e apanhar o comboio para Viana, onde o Verão sempre acabou em mim. O David apanhou boleia do destino. Do meu, nesta quase história.

Começámos a viagem de retorno em Leiria, numa despedida de solteiro de alguém, dormimos no sótão da casa, à época, do David.

Com um mapa ACP e a certeza do mar, decidimos que iríamos chegar a Sul a rentar as falésias, pelas estradas que olham o atlântico. Demorasse o tempo que demorasse. Nessa altura, tínhamos o tempo todo do mundo e o tempo era variável que não entrava em equação alguma. Assim o fizemos.

Deixámos o carro à porta da casa, tomámos um duche de água doce, jantámos rente ao Tejo e dormimos, ao fim de alguns dias a dormir no carro, em cama. Iríamos apanhar o mesmo comboio, na mesma linha do norte, na mesma hora matinal.

Estava escrito que o destino, nesta quase história, acabaria, para o David, em Coimbra e eu continuaria até Campanhã, onde trocaria para a linha do Minho com paragem em todas as estações e apeadeiros.

Acordámos cedo, atravessámos o Tejo no cacilheiro, vimos as nuvens de fumo intensas e só depois, muito depois, soubemos que o Chiado ardera. Sempre tivemos a secreta convicção que Lisboa ardera por nossa causa e, dos escombros, apenas ficou um texto na Antologia do DN-Jovem, dedicado ao David e à carrinha.

2- Era Março e era ontem. Acordo com um sms que diz “grande incêndio na rua da Mónica”. Ligo-lhe duas vezes, sem resposta. Vou às compras do mês, como assim, não trabalho e a ordem da casa e da vida é gostosa de fazer. Tenho duas chamadas não atendidas, da Mónica. Não há história. Foi na rua da Mónica.

Para acrescentar um pouco de ficção, ligo as duas quase histórias e concluo que existem sempre um grande incêndio perto de nós.

1 Comments:

At 6:24 da tarde, Blogger David (em Coimbra B) said...

Corrigidas estas histórias das curvas do Livramento. E que viagem fabulosa me lembras...

 

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