de que é feito um homem? II
«Tudo nos escapa, e todos, e nós mesmos. A vida do meu pai
é-me mais desconhecida que a de Adriano. A minha própria existência, se eu
quisesse escrevê-la, seria reconstruída, por mim, de fora, penosamente, como a
de outra pessoa; teria de recorrer a cartas, a lembranças de outrem, para fixar
essas flutuantes memórias. Nunca são mais que paredes desmoronadas, divisórias
de sombra. Conseguir que as lacunas dos nossos textos, no que se refere à vida
de Adriano, coincidam com o que teriam sido os seus próprios esquecimentos.
(…) Interdizer a si mesmo as sombras projectadas; não
permitir que o bafo de um hálito se estenda sobre o aço do espelho; aproveitar
somente o que há de mais duradouro, de mais essencial em nós, nas emoções dos
sentidos ou nas operações do espírito, como ponto de contacto com aqueles
homens que como nós trincaram azeitonas, beberam vinho, besuntaram os dedos de
mel, lutaram contra o vento agreste e a chuva que cega, ou procuraram no Verão
a sombra de um plátano, e gozaram, e envelheceram, e morreram.
(…) Nunca perder de vista o gráfico de uma vida humana, que
se não compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas
sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente
aproximadas e divergindo sem cessar: o que um homem julgou ser, o que ele quis
ser e o que ele foi.»
(Marguerite Youcernar, in Memórias de Adriano)
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à distância
não me acredito nesses números. haverá 3,5 milhões de portugueses a navegar na net? não coincide com a minha casuística de vida.
de resto não me repugna, que as pessoas estabeleçam contactos pela net. na minha infância e adolescência (anos-luz antes da net) tive vários correspondentes estrangeiros cujas moradas arranjava não sei bem onde e que se tornavam meus confindentes e as minhas janelas para outros mundos. também me escrevi intensamente com pessoas que antes vira apenas uma ou duas vezes. isso não inibiu a minha vida social, mas tornou mais suportável a solidão interior, a impaciência e todos os terramotos dessa fase da vida. também me ensinou a escrever e o que se pode fazer e até onde se pode ir com o que se escreve. e que as pessoas às vezes têm coisas dentro delas (tesouros), que não são facilmente aparentes.
se houvesse net quando eu tinha 13 anos, iria certamente ao Hi5 (que hoje nem sei bem o que seja), ao messenger, teria pelo menos 2 blogs (num dos quais escreveria sob anonimato total) e seria dependente do YouTube e de todos os sites onde pudesse encontrar as músicas da minha vida. e hei-de jurar que cresceria melhor que o que cresci.
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apelo

reescrevo aqui o conteúdo de uma mensagem que recebi (já entrei numa cadeia destas para o IPO aqui do Porto e lembrei-me que talvez pela linha pudesse estender a cadeia aí até Lisboa):
O IPO de Lisboa está a angariar filmes (VHS ou DVD) para os doentes (crianças e adultos) da unidade de transplantes que estão em isolamento (um período em que permanecem num quarto isolados do mundo e durante o qual o cinema pode ajudar o tempo a passar). É que, se algumas algumas pessoas trazem os seus próprios filmes, outras há que não os têm. Numa altura menos feliz das suas vidas, um sorriso vai fazer bem a quem passa dias inteiros numa cama de hospital. Rir é sempre um bom remédio :-)
As cassetes podem ser enviadas para:
Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil
Unidade de Transplante de Medula
A/C Sr.ª Enf. Elsa Oliveira
Rua Professor Lima Basto
1070 Lisboa
Ou então, informe-se pelo telefone: 21 722 9800 (geral) 217266785 (Cristina)
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desaparecer

as pessoas às vezes desaparecem para dentro das suas vidas
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