Coimbra-B

se ainda me bate forte o coração quando passo por Coimbra-B? mas claro, com tanta, tanta, força que me invade a agonia desesperada do fim das coisas todas que lá conheci. o fim que começava com a voz do chefe de estação "vai dar entrada na linha número dois o comboio inter-regional com destino a Porto-Campanhã" e avançava depois com o assomar da automotora - trágica e inexorável - na curva ao fundo da linha, numa marcha lentíssima que sabíamos ia acabar com tudo o que tínhamos quando nos descobríssemos dentro do comboio sós, desasados e sem nos conseguirmos lembrar como é que se vivia, como é que se respirava.
Coimbra-B está renovada, modernaça, limpa e colorida e, no entanto, não passo por lá sem que me surjam através da janela memórias a preto e branco das nossas mochilas no chão, sem ouvir violas e vozes ameaçando que todos os dias "são dias que passam" e sem sentir os olhos exaustos de tanto chorar.
deixamos lá, dissolvidos na argamassa e na atmosfera da tua estação, demasiada terra, demasiado sal, um cancioneiro inteiro, saudades gigantescas uns dos outros, todo o nosso medo de viver. não duvides disso David, nunca mais.
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de comboio
porque quem já atarefou, não tem para atarefar, no passado fim-de-semana fui a Lisboa de comboio. sim, fiz a linha do norte todinha. já não me lembrava como é especial viajar de comboio, sentir os Km desfazerem-se-nos debaixo dos pés, os lugares de sempre a ficarem para trás e um destino-desejo a chegar. já não me lembrava como é passar de comboio rápido, num instante, sem parar, pelo meu apeadeiro (a alegria que se sente, e uma espécie de asas) e, mais tarde, lezíria dentro, saber por uma linha distante de choupos e ciprestes que Lisboa e os amigos e a vida que lá aconteceria já não tardavam.
e nem uma fotografia trouxe para guardar de vez esta memória, esta viagem eterna.
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caderno de duas linhas V
cheguei ontem da Galiza, as malas repletas de areia, livros e crespúsculos. apanhei o comboio em Vigo e atravessado o rio Minho foi a alegria de sempre. às vezes nem sei porque saio de casa, tamanha é a euforia de regressar. pouca-terra, pouca-terra, toda a viagem para casa a conferir um a um os lugares onde o meu coração já bateu: Caminha (numa noite de loucura, apaixonada e às escuras numa casa arrombada), Moledo (num Agosto difícil, com 15 anos e demasiado perto do fruto proibido de Vilar de Mouros), Darque (onde nos apeámos em 85, na primeira noite da nossa Volta ao Minho), Apúlia (onde o meu anjo da guarda me pôs a mão no volante quando adormeci por instantes numa curva) e Campanhã (o meu porto de sempre).
quando entro no gabinete de chefe de estação o telefone já toca de Coimbra-B. o Labitinha conta-me que a Helena e o David têm escrito recados inspiradíssimos em cadernos de duas linhas. pouso as malas, ligo o portátil e consigo vê-los do meu lugar: sentados num bar de estação, uma mulher e um homem, sem bagagem, debruçados sobre um mapa e dois gins. ela coberta de palavras: coladas à roupa, penduradas aos cachos pelos cabelos revoltos, enroladas nos colares, pulseiras e anéis. ele, subitamente analfabeto, crê que ela emudeceu. e faz-lhe um desenho do futuro (esquecido que ela não vê).
permanecerão assim ainda muito tempo: ele sem a ler, ela sem o ver. mesmo deste lado do vidro sei que à volta deles cheira a álcool barato e que é fria a mármore suja da mesa. sei que as mais belas histórias são as que quase aconteceram, acontecendo assim muito mais intensamente e sem serem desafiadas pelo o curso indiferente do tempo. do resto não sei.
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"Carris de Papel"

"Carris de Papel - O Caminho-de-Ferro na Literatura Portuguesa" é o título de um livro que estou mortinha por folhear. trata-se de uma "
colectânea de textos portugueses atravessados por comboios" (Público / Mil Folhas de hoje): contos, memórias, cartas e poemas, de 26 autores que incluem, entre outros, Nemésio, Ruben A., Virgílio Ferreira e Francisco José Viegas.
a uma semana das minhas férias vou, assim, afiando o dente para saborosas leituras à beira-mar. logo, logo, contarei como foi.
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