a casa dos livros

dos dias que passei na estação da H guardo uma memória de banquete: prateleiras e prateleiras cheias de livros que pude folhear inconsequentemente, ao acaso, trazer para o sofá, devolver à prateleira ao fim de umas páginas ou degustar até ao fim. como uma visita à Fnac sem horas para nada, com bar aberto, cama à disposição e sem gastar um cêntimo. claro que, como acontece em férias decentes, li até ao torcicolo. só que desta vez não tive de fazer malas, era uma casa com livros incluídos. de todos, levei dois até ao fim:
O enigma de Zulmira, Vasco Graça Moura (Quetzal, 2002): o meu primeiro VGM em ficção, uma excelente surpresa. parece uma história de um outro Portugal com gente improvável e no entanto temos a certeza de que tudo foi quase assim. ler nas contracapas a lista de livros do autor é um exercício estonteante: como é possível ter escrito mais livros que anos de vida (tendo feito tantas outras coisas entretanto)?
Jerusalém, Gonçalo M Tavares (Caminho, 2005): o meu primeiro GMT... e sem vontade de repetir. confesso que caí numa esparrela: fui até ao fim pressionada por todo o extasiado falatório em redor do autor. estava a detestar mas ia lendo e pensava: isto deve estar mesmo a começar a tragar-se. mas nunca aconteceu. acho que me descobri mais um handicap.
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Vasco Graça Moura visto do Porto
confesso que hoje só
lá fui porque o
Eduardo Pitta ia estar no stand da Quidnovi (agora dei nisto de ter livros autografados: não sei se é pelo autógrafo no objecto já de si sagrado, se é pela possibilidade de espreitar nos olhos de quem escreve) e decidi experimentar ler em papel um dos bloggers que tenho como referência.
tinha posto de lado a homenagem a Vasco Graça Moura (talvez por por supôr uma coisa maçadora e distante da escrita). mas enquanto esperava pela hora dos autógrafos fiquei por ali e dei comigo presa às palavras de Luís Miguel Queirós enquanto falava do escritor e dos seus poemas (incluindo dos poucos que conheço e que tenho como meus: "Picasso visto do Porto" e "Ofício de viver") e, sobretudo, das coisas que nos acontecem dentro ao ler. e fui ficando (mesmo não gostando muito da forma como lhe disseram os poemas), até ao fim. descobri que nunca tinha visto o escritor, espreitado nos seus olhos, aqui do Porto.
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"ofício de morrer"
"eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.
uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova do meio, a do costume.
corria o mês de agosto com a sua terra escura
encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.
vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos
no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.
voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo.
ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, mesmo sem businas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.
quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:
já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;
que é preciso humildade, não orgulho;
e parar de escrever;
e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto - a nossa condição
demasiado humana, a
voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa:
"e até rapariguinhas o fizeram",
tinham nomes obscuros e nenhum
remorso lancinante, ninguém para falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil; tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.
foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com
do not disturb ou coisa assim,
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.
não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.
não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas do desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.
não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade inimaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora e quarenta e dois anos.
e sei que nessa altura há já poucas verdades
e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência."
Vasco Graça Moura (Os Rostos Comunicantes, 1984)
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desfazer as malas I

andava desde 1986 para ler um livro de Cesare Pavese, por causa de um poema de Vasco Graça Moura que li vezes sem conta (chamado "ofício de morrer" e que começava: "
eu imagino assim a morte de pavese"). mas nunca imaginaria que alguém que se suicidou, mais ou menos com a minha idade, poderia escrever de forma tão luminosa.
agora não vou conseguir descansar enquanto não lhe ler o resto (começando talvez por "Ofício de Viver", publicação póstuma dos seus diários).
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