ao ler a biografia de Alexandre O'Neill encontrei muitas semelhanças nas tiradas dele e nas da minha filha de seis anos que é uma apaixonada da retórica e solta gargalhadas de prazer ao brincar com as palavras. tenho a certeza de que, se fossem contemporâneos, se entenderiam às mil maravilhas, ela e o O'Neill e ela emprestava-lhe, com certeza, este seu vocábulo mirabolante de tão lógico: dezacinco.
este foi O livro das férias (trazido de Stª Apolónia pela H, in extremis, quando já se escoavam as páginas que levara de Campanhã), devorado de um fôlego só, a sentir a falta de ter ao lado as Obras Completas para ir conferindo, poema a poema. fiquei fascinada com o personagem, de quem nada sabia para além de alguma escrita. mas é como se já tivesse conhecido homens assim: eternos garotos, visionários, siderais, exteriores a este mundo, tão dependentes dos outros que o seu egoísmo gigantesco se transfigura em altruísmo.
fiquei arrepiada ao perceber que a primeira vez que li O'Neill ele ainda era vivo (foi pela mão do Paulo Filipe Gouveia Monteiro que, na Aldeia das Dez, ajudava um bando de adolescentes a saber o que dizia ao dizer "tropeço de ternura por ti").
- uma semana depois de retomar o trabalho, estas malas ainda meias por desfazer, o tempo literalmente devorado pelo dia-a-dia -
Minuciosa formiga não tem que se lhe diga leva a sua palhinha asinha, asinha.
Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder.
Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão.
Assim devera eu ser se não fora não querer.
(- Obrigado, formiga! Mas a palha não cabe onde você sabe...)"
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (musicado por Alain Oulman e aqui cantado por Adriana Calcanhoto - em 1969 cantado por Amália Rodrigues no album "Amália e Vinicius")
Sou tão enthusiasta pelos caminhos de ferro, que, se fosse possível, obrigava todo o paíz a viajar de comboio durante 6 meses (Fontes Pereira de Mello)